quinta-feira, 30 de abril de 2009

Por causa dela

Outro dia recebi aqui no blog a grata visita da Rita de Cássia, que foi minha editora há 15 anos no jornal O Estado, meu primeiro emprego em redação. Imediatamente lembrei de algo que ela me falou na época e incorporei desde então: "repórter meu não escreve 'por causa'!". De fato, é um cacófato feinho, que lembra a gripe suína e ainda por cima se aproxima demais da linguagem falada. Além das muitas alternativas ("em decorrência", "em virtude", "em consequência"), pode-se simplesmente evitar a necessidade de recorrer a qualquer uma dessas expressões - em vez de "Ele mal conseguia caminhar, por causa da dor que sentia", basta "Ele mal conseguia caminhar, pela dor que sentia" ou "Com a dor que sentia, ele mal conseguia caminhar". Acho que um dos componentes mais importantes do que se costuma chamar de "experiência" é isso: ir capturando ao longo dos anos o que as pessoas têm de bom a ensinar.

Digno de um roteiro de cinema

A vitória consagradora do Palmeiras contra o Colo-Colo, ontem à noite, no Chile, teve todos os elementos dramáticos que fazem do futebol o esporte mais popular do mundo. Quem vencesse garantiria vaga na próxima fase da Libertadores, e quem perdesse estaria fora da competição mais importante do continente. O empate sem gols, que classificaria o Colo-Colo e eliminaria o Palmeiras, persistia até o finalzinho. Àquela altura, o Palmeiras jogava com um a menos (Marcão havia sido expulso no começo do segundo tempo) e sem dois dos seus principais nomes, Pierre e Diego Souza, substituídos por contusão. O time havia perdido algumas boas chances ao longo do jogo - incluindo duas bolas na trave. Até que, aos 42 minutos do segundo tempo, Cleiton Xavier arriscou um chute improvável, de muito longe, com dois marcadores à frente. Seria uma daquelas tentativas que os narradores chamam de "desesperadas" caso a bola não tivesse descrito a trajetória perfeita - entrou no ângulo esquerdo, fora do alcance do goleiro. O mais incrível é que o Palmeiras começara a competição com duas derrotas, o que o havia deixado virtualmente eliminado, e conseguiu se recuperar com um empate e três vitórias nos jogos seguintes. Drama, puro drama... É assim que se forja um campeão. Ontem o time fez jus ao glorioso hino palestrino:
Quando surge o alviverde imponente
No gramado em que a luta o aguarda
Sabe bem o que vem pela frente
Que a dureza do prélio não tarda (...)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Se isso serve de consolo...

Se você acha que o Leão brasileiro é feroz demais, saiba que, em 1945, ano em que terminou a Segunda Guerra, Carmen Miranda declarou ter recebido 201.458 dólares e o Imposto de Renda dos Estados Unidos ficou com nada menos que 136.680 dólares - ou seja, uma mordida de quase 70% (finalmente estou lendo Carmen, a biografia escrita por Ruy Castro, que ficou dois anos na fila de espera).

Por falar em metrô...

Saiu o segundo comercial da nova campanha do Metrô de São Paulo, para a qual trabalhei na pré-produção, encontrando os personagens. O filme reconstitui a história do primeiro dos 16 partos realizados dentro das estações - Karina Lopes, 16 anos, veio ao mundo com a ajuda da agente de segurança Isabel Nadfeyes, que continua trabalhando no mesmíssimo lugar. Veja aqui.

Processar ou não, eis a questão (2)

A indústria do dano moral nos Estados Unidos é muito criticada, mas contribui um bocado para melhorar as coisas por lá. Um exemplo que presenciei há três anos: estávamos no metrô de Washington quando uma mãe não conseguiu descer a tempo com o carrinho de bebê. A porta se fechou (de forma brusca e sem aviso sonoro ou visual) e ela se viu obrigada a ficar do lado de dentro e empurrar o carrinho para fora, com receio de que o bebê ficasse preso e fosse arrastado. Enquanto ela gritava desesperadamente "my baby!", eu e outros dois passageiros corremos para a alavanca de emergência que faz o metrô parar. Cheguei antes e a acionei. Passou pela minha cabeça que, naquela estação vazia, o carrinho poderia voltar e ser tragado pelo próprio trem em que estávamos ou então cair no fosso e ser atropelado pelo trem seguinte. Enfim, tomei a decisão numa fração de segundo. Muitos passageiros ficaram indignados, pois tinham compromissos e o processo para fazer o trem andar de novo é demorado. Em vez de reclamarem comigo, contudo, eles se dirigiam agressivamente à pobre mãe (até porque era uma imigrante africana), como se já não bastasse toda a angústia que ela estava sentindo. Pois, ao final de tudo isso, uma mulher se apresentou à moça como advogada e sugeriu um processo - e imediatamente começou a anotar contatos de eventuais testemunhas. Não sei se o processo foi adiante, mas certamente serviria para que o metrô buscasse alternativas para evitar a repetição do problema.

Processar ou não, eis a questão (1)

Fiquei alguns dias afastado do blog, envolvido com as coisas da "vida real", mas não queria deixar de comentar o incidente com o caríssimo Gustavo Cabral, vítima de erros absurdos cometidos em um centro privado de atendimento médico (ele entrou com uma simples irritação no olho e saiu com dez pontos no supercílio do outro olho - a Aline conta em detalhes como tudo aconteceu). Seria certamente caso para um processo, mas não os culpo se abrirem mão dessa alternativa. A ineficiência da Justiça brasileira incomoda, e a gente vê tanta coisa errada que acaba ficando meio anestesiado e excessivamente tolerante. Mas fico pensando como teria sido se, no lugar do Gustavo, um cara forte e super saudável, estivesse uma senhora de idade - minha mãe, por exemplo. Que consequências trágicas esse despreparo todo poderia trazer? E será que foi mesmo apenas despreparo ou algo mais grave e imperdoável, como a mera indiferença pelo cliente (que, nesse caso, paga caro para ser bem tratado quando necessário)?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O velho assoprador de ilusões

Caramba, esse papo de choro e chuva me fez lembrar do Cândido do Saxofone. E não é que o texto, escrito há dez anos, ainda perambula pela internet? - taquí, ó. A ilustração, linda, é do Frank. Na versão impressa (que guardo aqui comigo, claro), ela vai de cabo a rabo da página, majestosa.

Primórdios do choro

A Adri está divulgando um livro-CD muito legal para crianças, Pedro e o choro. O principal personagem é o memorialista da música Alexandre Gonçalves Pinto, conhecido pelo apelido "Animal", autor do livro O choro - reminiscências dos chorões antigos, publicado em 1936, documento precioso sobre o surgimento daquele que viria a ser reconhecido como um ritmo tipicamente carioca. Com biografias básicas dos principais músicos da época na cidade, a obra do Animal ajudou um bocado na minha pesquisa de mestrado sobre a vida e obra do flautista Patápio Silva (1880-1907). Uma das conclusões às quais o livro permite chegar é a de que quase ninguém conseguia viver exclusivamente da música. Em geral, os bambas do início do século passado eram funcionários públicos com cargos modestos - carteiros (como o próprio Animal), porteiros, guardas e fiscais da prefeitura, estafetas dos Telégrafos, servidores do Arsenal de Guerra, tipógrafos da Imprensa Nacional, empregados da Saúde Pública e condutores de trens da Central do Brasil. Alguns carregavam, no nome artístico, a repartição como “sobrenome”: Cícero Teles era conhecido na roda dos chorões como “Cícero dos Telégrafos”; havia também o “Pimenta da Alfândega” e o “Gonzaga da Central do Brasil”. Dos mais famosos, os flautistas Juca Kallut e Geraldo dos Santos também trabalhavam nos Correios, o violinista e compositor Sátiro Bilhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, enquanto o célebre pianista e compositor Ernesto Nazareth foi escriturário do Tesouro Nacional. E havia a ala dos operários: o violinista e compositor Quincas Laranjeiras trabalhava na Fábrica de Tecidos Aliança (e tocava na banda mantida pela companhia), enquanto no quadro da concorrente, a Fábrica de Tecidos Confiança, estavam o flautista Pedro Galdino e o trombonista Cândido Pereira da Silva. O próprio Patápio fez uns bicos como tipógrafo antes de se tornar um caso raro de dedicação exclusiva à música, pendendo mais para o erudito do que a turma que algum tempo depois daria o choro à luz.

Trilha sonora de Floripa

Chove lá fora e aqui faz tanto frio
Chove chuva, chove sem parar
Lágrimas e chuva molham o vidro da janela
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar
I'm singing in the rain
Have you ever seen the rain?
I only wanted to see you laughing in the purple rain

(E essa chuva que nunca acaba, hein?)

As pequenas alegrias do cotidiano...

... Como tirar o aparelho dos dentes, depois de três anos, não têm preço. Saí do consultório do doutor Ivano distribuindo sorrisos certinhos e gratuitos.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Restaurante do Maílson

Trabalhar em mais de uma tarefa ao mesmo tempo, para clientes diferentes, é algo corriqueiro na vida de frila. Nos períodos em que isso acontece, é preciso duplicar a atenção para não misturar cabrito com carlito. Há dois anos, eu estava coordenando a produção do guia de gastronomia da Veja em Santa Catarina e, nessa condição, conversava bastante por telefone com donos de restaurantes, bares e afins. Nesse meio tempo veio o pedido da Exame para colaborar na apuração de uma matéria sobre os 40 anos da revista. Minha tarefa seria entrevistar figurões da economia sobre o que havia acontecido de mais importante no período e mandar relatórios sobre as conversas. Havia uma lista de sete ou oito possibilidades, das quais eu teria que entrevistar pelo menos quatro. A primeira providência foi achar o contato desse pessoal e, como quase todos tinham site e o prazo era relativamente tranquilo, decidi mandar um e-mail inicial, explicando o que eu precisava e deixando meus números de telefone. Enviados os e-mails, esqueci temporariamente do frila para a Exame e retomei o guia de gastronomia. Menos de uma hora depois, recebo um telefonema.
- Poderia falar com o Maurício?
- Sou eu.
- Oi, aqui é o Maílson.
Faltou um décimo de segundo para que eu perguntasse "De que restaurante?", mas a ficha caiu bem na hora e escapei do vexame: era o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, retornando o contato com tanta rapidez que quase me pegou no contrapé.
Mas que Maílson parece nome de dono de restaurante de frutos do mar em Cabeçudas, ah, isso parece.

Valeu cada um dos 14.000 passos

Três grandes companhias (Carlito, Dauro e Lauro) e um dia perfeito para caminhadas - nublado, mas sem chuva. Foi assim que, depois de alguns anos, matei as saudades da Lagoinha do Leste e apresentei ao meu filho uma das praias mais belas do Brasil.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Viagens - do presente e do passado

Sobre o caso da farra das passagens aéreas, é um orgulho saber que um dos jornalistas que levantaram a lebre no Congresso em Foco é o Lúcio Lambranho, colega da UFSC que, com seu apurado faro, tem se destacado no jornalismo investigativo. Isso me lembra do dia, há nove anos, em que demos uma carona ao Lambranho, entre Floripa e São Paulo. Estávamos todos nos mudando, nós e ele. Foi uma viagem quase surrealista: dentro de um Ford Ka íamos nós, boa parte da nossa mudança, o Lambranho (que não é miúdo) e a bagagem dele. E ainda choveu um bocado no caminho, para completar. Se fôssemos filhos de deputado, certamente não teríamos passado por isso...

Just my cup of tea

Estão todos convidados para caminhar amanhã até a Lagoinha do Leste, que acaba de ser mais uma vez escolhida uma das dez praias mais bonitas do Brasil - desta vez pelo jornal britânico The Guardian. É um programa que eu e o Dauro estamos combinando desde dezembro. Agora vai, a não ser que amanheça chovendo. Se estiver apenas nublado e meio frio, como hoje, está valendo. A idéia é ir pela trilha do costão e voltar pela do Pântano do Sul. O ponto de encontro é a ponte do riozinho da Armação, às 9h.

Nova campanha do metrô

Há dois meses, a MPM Propaganda me chamou a São Paulo para uma missão urgente: encontrar pelo menos meia dúzia de bons personagens, entre usuários e funcionários, para uma campanha do Metrô de São Paulo. Seria a minha terceira tarefa do gênero para a agência nos últimos três anos, depois de percorrer o interior do Pará - Parauapebas, Serra Pelada, Eldorado dos Carajás e arredores - em busca de personagens para uma série televisiva da Vale e de passar por sete capitais do Nordeste para ajudá-las a preencher os relatórios de pré-candidatura à Copa de 2014 (foi a MPM que, contratada pela CBF, preparou o documento oficial da candidatura brasileira). O mote da campanha para o Metrô seria apresentá-lo como o "melhor amigo" da cidade. Em três dias de trabalho intenso, fui conhecer de perto todos os aspectos que pudessem render bons personagens - a manutenção durante a madrugada, o sistema de vigilância por câmeras, o setor de achados e perdidos, o programa de acessibilidade a cadeirantes, o serviço de aluguel de bicicletas, as bibliotecas existentes em várias estações. Resgatei também histórias dos funcionários que trabalharam na construção das primeiras linhas, na década de 1970, e corri atrás de outros temas interessantes, como os partos que já ocorreram dentro das estações. Fui acompanhado na maior parte do tempo por um cinegrafista, que produzia um making of para uso do pessoal da criação, e por um experiente assessor de comunicação do Metrô, Osmar Maeda, que abria todas as portas. No final, conseguimos fechar oito boas histórias, algumas envolvendo mais de um personagem. A campanha chegou agora à TV. No primeiro comercial, o inspetor de equipamentos Sérgio Delazari, 46 anos e 18 de metrô, apresenta o sistema de manutenção, uma verdadeira "operação de guerra" montada todas as madrugadas, entre 1h e 4h30. Delazari é um dos funcionários responsáveis por detectar falhas nos trilhos que possam interferir na operação - ele vistoria 5,5 km por noite, munido apenas de uma lanterna e sobretudo do olhar treinado. Na entrevista do making of, feita às 3h30 da madrugada sobre os trilhos, ele chegou às lágrimas de tanto orgulho pelo que faz. O comercial de estréia da campanha pode ser visto aqui.

domingo, 19 de abril de 2009

Sagrada pelada de segunda

Meu prazer em lidar com números me levou à condição de estatístico voluntário dos Peladeiros, turma de amigos (a maior parte jornalistas, mas com agregados de outras áreas) que joga bola toda semana desde 2002. O gramado preferido é o do Hospital Universitário - até porque, na nossa faixa etária, é bom saber que bastam dois minutos para encontrar atendimento médico. O Gustavo Cabral registra a ficha de cada jogo, junto com uma divertida "resenha" enviada por e-mail, e eu vou atualizando os números e divulgando periodicamente para a turma. Até hoje, foram 281 jogos e 4.326 gols marcados (sim, a média é de incríveis 15,4 gols por partida). Nada menos que 281 peladeiros já entraram em campo. É um espaço democrático. Sempre há convidados novos, às vezes até ex-jogadores profissionais - o exemplo mais recente foi Dão, centroavante que fez sucesso no Avaí no final da década passada. Muitos jogam só uma vez e nunca mais aparecem, possivelmente constrangidos pelo alto nível técnico da rapaziada, mas há um "núcleo duro" que comparece regularmente. Eu, que nesse meio tempo morei em São Paulo e andei viajando um bocado, participei de "apenas" 87 partidas - há 17 peladeiros mais assíduos. O maior fominha da história é justamente o Cabral, que completou 250 partidas na última segunda (noite que escolhemos por ser normalmente a mais tranquila nas redações). Muitos peladeiros ganham alcunhas que acabam incorporadas pelos próprios, a ponto de serem registradas nas costas do uniforme. O Cabral é o "Capslock", porque sempre escreve seus e-mails para a turma em caixa alta. O Sérgio Negrão (maior artilheiro dos Peladeiros, com 411 gols marcados em 237 jogos) é "Paçoca" desde o dia em que iniciou a partida comendo uma paçoquinha. O Alexandre Gonçalves é o "Esquerdinha", pela habilidade com a perna em questão (a direita mal serve para subir no ônibus, em compensação). André Gassen é o "Malborão" porque fumava um monte - felizmente largou o vício, mas o apelido é eterno. O Frank, com seu estilo de jogar plantado no ataque, é o "Mandioquinha" - e seu filho Léo virou naturalmente o "Aipim". O Mateus Boeing, que está passando uma temporada na Irlanda, recebeu a alcunha de "Fokkercem" graças ao sobrenome aéreo. Já o meu apelido é "Bombra". Começou Bomrício, depois virou Bombrício (às vezes eu jogava na defesa e outras vezes no ataque - era como o Bombril, com mil e uma utilidades) e foi naturalmente simplificado para Bombra. A melhor parte de tudo, no entanto, não é o jogo em si, mas o que chamamos de "pós-jogo": Denise e Adauto, o simpático casal que toca o bar do HU, tem preparado uma série de pratos típicos ilhéus especialmente para a gente, a preço de custo. Só no último mês tivemos sopa de siri e estrogonofe de camarão. Para amanhã, está anunciado um imperdível berbigão com arroz e farofa. Estão todos convidados!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Desafio matemático

Não sou um profundo conhecedor de matemática - longe disso -, mas sempre achei fascinante e divertido lidar com números. Como jornalista, gosto um bocado de produzir informações a partir do cruzamento de estatísticas. Fico feliz ao perceber que neste ano o Lauro tem um professor que incentiva uma relação lúdica com a disciplina, em vez do velho decoreba de fórmulas. Ontem, ao chegar da escola, o rapazinho me propôs um desafio: qual a soma de todos os números entre 1 e 1.000, ambos incluídos? Se eu matasse a charada, adiantou ele, poderia dizer em menos de um minuto qual é a soma de todos os números entre 1 e 1.000.000 ou até mesmo entre 1 e 1.000.000.000 - bastaria aplicar a mesma lógica. Quem se habilita a decifrar o enigma?

Conselho ao jovem frila

Acabo de receber o pagamento por um frila que entreguei há sete meses. E não há nada de estranho nisso. A matéria (sobre o hábito de dar carona em Floripa, para a VIP) ficou algum tempo na gaveta, e é praxe só receber depois da publicação. Para mim, lidar com essas oscilações depois de cinco anos como frila é tranquilo. Mas conto a historinha de um caso extremo para ilustrar como a vida financeira de um "desempregado" pode ser irregular, informação importante para quem está fazendo planos nesse sentido. Deve-se começar com uma reserva que assegure pelo menos seis meses de contas pagas.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Até quando Minc fica?

Lula não perde oportunidade de reclamar em público do que considera rigor excessivo para concessão de licenças ambientais, algo que estaria atrasando o cronograma das obras do PAC. Além do mais, o estilo peculiar de Minc chama a atenção da mídia - e é notório que o presidente não gosta de dividir holofotes. Circunstâncias semelhantes causaram a fritura da antecessora de Minc, Marina Silva.

Um estado na contramão

O Brasil tem uma legislação ambiental avançada. Pena que a cabeça dos governantes esteja a milhas e milhas de distância. O novo Código Ambiental que Santa Catarina aprovou é uma piada de mau gosto. Reduz a área de preservação à beira dos rios de 30 para cinco metros, com o argumento de que o modelo de desenvolvimento do estado é de pequenas propriedades. Ou seja: em vez de implantar técnicas e tecnologias que resultem no aumento de produtividade da agropecuária catarinense, optou-se pela saída simplista e burra (pois trará resultados insignificantes para a agropecuária e um prejuízo enorme para o meio ambiente) de utilizar as faixas de terra "desperdiçadas" à beira dos rios para ampliar as áreas de plantio e criação de animais. Tudo isso acontece num contexto em que o mundo inteiro se preocupa com a anunciada escassez de água, problema causado em grande parte justamente pelo desperdício registrado na agricultura - que continua priorizando métodos arcaicos de irrigação em detrimento de alternativas mais racionais, como a microaspersão e o gotejamento. Como se não bastasse ser um absurdo por si só, o tal Código Ambiental de Santa Catarina ainda contraria a legislação federal, o que é outra sandice. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, avisou que a lei federal é a que continua valendo, claro - e lembrou que desobedecê-la pode levar à prisão.

domingo, 12 de abril de 2009

Bois, cavalos e hipocrisia

Final de semana desfrutado na bela cidade de Governador Celso Ramos (ou Ganchos, para quem, assim como eu e quase todos os moradores, prefere o antigo nome). É o "epicentro" da farra do boi, cuja ocorrência se concentra nos dias que antecedem a Páscoa. Apesar da proibição e de toda a pressão da opinião pública, a farra continua ocorrendo quase que livremente (sobretudo à noite, como testemunhamos ontem ao voltar de uma pizzaria). Lógico que o simples fato de ser algo cruel com os animais desmonta qualquer argumento a favor da tradição, já que a humanidade precisa evoluir e tradições bárbaras não se justificam apenas por serem tradições. A grande hipocrisia é que a mesma mídia que persegue a farra do boi faz apologia aos rodeios, que obviamente também maltratam os animais. Qual a diferença entre um e outro? Simples: rodeios são produtos que dão retorno financeiro.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

As aventuras de Zé Perrí

Escrevi um pequeno texto sobre a relação do escritor Saint-Exupéry com a praia do Campeche (uma história já bem conhecida aqui em Floripa) para a edição deste mês da Tam nas Nuvens, dedicada em grande parte ao Ano da França no Brasil. A revista pode ser inteiramente lida pela internet - a página sobre Exupéry é a 90.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sobre Flóscula, Ermembergo e Orozimba

O post anterior me lembrou de uma matéria que fiz para o jornal A Notícia, em abril de 1997, sobre nomes inusitados. Entre as minhas fontes estavam a dona-de-casa Flóscula Lima Borges (ideia do pai para homenagear uma ex-namorada) e o engenheiro Ermembergo Pellizzetti (como se não bastasse o nome pitoresco, o sobrenome com três consoantes dobradas!). Uma vasculhada na lista telefônica de Florianópolis da época revelou a existência de nomes como Arjuna, Arnóbio, Creóbolo, Delorme, Flordoaldo, Horiginalda, Indefendente, Montpoliciano, Orozimba, Piraguay, Tranguilanez e Universinha. Até minha mãe colaborou na matéria, contando ter namorado um rapaz chamado Ilo cujos irmãos homens se chamavam Oli, Loi, Lio, Oil e Iol (isso que é economizar letras, hein?). Há o caso clássico da tradicional família Rosado, do Rio Grande do Norte, cujos filhos foram "enumerados" em francês - Un, Deux, Trois e assim por diante (o décimo-oitavo, Dix-Huit, tornou-se um político conhecido). Mas o pior de todos teria sido o do recentemente falecido Rudá de Andrade, filho de Oswald de Andrade e Pagu, que por pouco não se chamou Rodo Metálico.

Sobre Alines, Maurícios e Zés

A Aline descreveu algumas confusões que andaram fazendo com o nome dela. E olha que nem é dos mais comuns... Maurício é bem pior. Só na turma de aproximadamente 30 amigos que joga bola nas noites de segunda somos quatro. Sorte que cada um tem seu codinome: enquanto eu sou o Bomrício (criação do Frank que "pegou" e está até inscrita nas costas da minha camiseta do uniforme), o Maurício Xavier é o Mauricinho (ele é calouro da minha turma da universidade e a gente já se diferenciava assim naquela época), o Maurício Claudino é o Mau-Mau e o Maurício Frighetto é - adivinha? - o Frighetto. Ontem, depois do camarão ensopado que sucedeu a pelada, dei carona justamente para o Mau-Mau e o Frighetto - e ficamos nós três falando sobre as agruras de ter um nome comum (uma das curiosidades é a tendência de confundirem Maurício com Marcelo). Mas é claro que poderia ser pior: veja o caso do nosso amigo José da Silva Jr., que só mesmo com a criatividade que lhe é peculiar conseguiu se diferenciar da multidão, transformando-se no Zé Dassilva. Por tudo isso, eu e a Cris procuramos para os nossos filhos nomes que fossem curtos, "clássicos" e ao mesmo tempo não muito comuns. Chegamos a Lauro e Lígia, e estamos satisfeitos com as escolhas - tomara que os dois também gostem!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dicionário prático para pré-adolescentes

Mal-entendido: é quando você calcula mal a força necessária para fechar uma porta e alguém pensa que você está zangado.

Por um pedaço de chão

Os nove homens que carregam a cruz, construída com dois troncos de árvore, estão cansados mas não desistem. Falta pouco. Um deles, Quintino Zilli, não deveria fazer tanto esforço. Ele teve que abandonar o trabalho no campo porque sofre do coração. Viúvo, 49 anos, deixou a pequena propriedade em Chapecó sob o cuidado das duas filhas e, "há catorze meses", como faz questão de ressaltar, partiu para Criciúma, onde está trabalhando numa oficina de chapeação e pintura.

Chegaram. Com o suor escorrendo por debaixo do chapéu de palha, Quintino diz que não é fácil trocar o campo pela cidade. "Dá muita saudade. Quando veja uma terra parecida com a minha, então, me dá um aperto tão grande no peito que eu até choro", conta, com o olhar vertiginosamente azul voltado para a cruz que acabara de carregar.

A via-crúcis de Quintino pelas ruas de Florianópolis foi acompanhada por uma multidão. Dez mil agricultores e ex-agricultores vieram de toda Santa Catarina para a oitava Romaria da Terra, uma manifestação político-religiosa a favor da Reforma Agrária. A data, 12 de setembro, é dedicada a São Selésio, um mártir da Igreja Católica morto pelo Império Romano que virou santo porque nunca perdeu a fé.

Também para os romeiros, a esperança é a última que morre. E a solidariedade ainda está bem viva. Parados em frente à Catedral, dedicaram um minuto de silêncio - ambos, o minuto e o silêncio, religiosamente cumpridos - aos mortos nas chacinas da favela de Vigário Geral e dos meninos de rua da Candelária, no Rio de Janeiro, dos presidiários de São Paulo e dos índios Ianomâmis. Chapéus encostados nos peitos, eles ainda conseguem pensar nas outras vítimas de massacres sociais. Quando os sinos romperam o silêncio, o vôo assustado dos pombos confirmou o tom pacifista da manifestação. (...)

Memórias de minhas pautas alegres (1)

Setembro de 1993. Eu havia ingressado no curso de jornalismo no ano anterior e finalmente teria pela frente uma pauta de verdade. Os alunos de redação iríamos cobrir a Romaria da Terra, evento anual organizado pela Comissão Pastoral da Terra. O melhor texto seria publicado no Zero, o nosso jornal-laboratório. Meu trabalho não foi o escolhido e fiquei um pouco frustrado, pois era um bocado "fominha" (na edição anterior do jornal havia publicado quatro matérias, incluindo um perfil do movimento de anarcopunks e a cobertura do festival de balonismo do balneário gaúcho de Torres). Dois meses depois, no entanto, o meu texto sobre a Romaria da Terra receberia o prêmio de Melhor Reportagem na sexta edição do Set Universitário, organizado pela PUC-RS. Calouro folgado, inscrevi no concurso tudo o que havia escrito até então. Deu certo. Os primeiros parágrafos da matéria, que nunca foi publicada, seguem no próximo post.

A verdade nem sempre é bonita

- Fiz um gol!, contou o Lauro, entusiasmado, assim que entrou no carro depois do futebol na escola.
Perguntei se o time dele havia ganho a partida, e ele respondeu que não: 4 a 2 para o outro lado. Eu quis saber, então, se ele ficava mais feliz quando o time vencia ou quando fazia gol, mesmo que perdesse o jogo.
- Ah, eu gosto mais quando faço gol.
Pensei em dizer que as conquistas coletivas são mais importantes que as individuais e que é melhor quando a gente alcança um objetivo com a ajuda dos outros, mas não dá para ser politicamente correto o tempo todo.
- Eu também, filho. Lá nos Peladeiros é igualzinho...
Afinal de contas, somos todos crianças grandes.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Recordar é viver (7)

Qual a diferença entre rebeldia e indisciplina quando se analisa o comportamento capilar? A Ana Paula jura que existe, até me explicou com detalhes, mas ainda não estou convencido. Essa discussão fundamental para a perpetuação da espécie humana surgiu quando encontrei na embalagem do xampu Garnier Fructis a seguinte indicação, que considerei um tanto exagerada: "para cabelos secos, rebeldes, indisciplinados e com frizz". (Maio/2005)

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Nos olhos (azuis) dos outros é refresco

Vanderlei Luxemburgo criou uma estratégia, já bem manjada, de disfarçar seus insucessos como técnico de futebol: coloca a culpa nos outros. Quando seu time perde, alguém sempre leva pau - o árbitro, o bandeirinha, a federação, o gramado, o gandula. Ele faz isso na tentativa de tirar o foco de si próprio e dos seus jogadores. Pois o presidente Lula, em queda livre nas pesquisas de popularidade depois que a "marolinha" chegou por aqui, parece ter estudado na mesma escola: "Quando eu era sindicalista, eu culpava o governo. Quando eu era oposição, eu culpava o governo. Quando virei governo, passei a culpar a Europa e os Estados Unidos", disse ele ao primeiro-ministro britânico, Gordon Brown - que, ao passar a piada adiante, revelou como nosso presidente joga para a torcida. Enquanto a conjuntura internacional estava ajudando, o mérito era de seu governo; agora que não está mais, "a culpa é do juiz".