Devo, então, contar-lhes como tudo começou. Não espero que acreditem em cada palavra, pois nem mesmo eu acreditaria.
Hahaha, gostaram do início? Chupei de uma revista de sacanagem. Depois dessa introdução cheia de não me toques, o sujeito começa a contar as maiores barbaridades. Aparece até pônei na jogada.
Mas vamos ao que interessa. Era o início de um dia feio de inverno – uma manhã enfarruscada, como diria minha tia Ermelinda, que o diabo a tenha em bom lugar. Ela foi a única que estudou um pouco na família e usava essas palavras diferentes só pra humilhar a gente. De que adiantou? Nadica. Morreu na miséria, a desgraçada.
Então. Era o início de um dia enfarruscado de inverno, naquele horário em que a gente não encontra ninguém na rua além dos bêbados muito bêbados e dos trabalhadores muito trabalhadores.
Eu não tava tão bêbado – o efeito da garrafa de 51 que eu zerei meia hora antes já tinha passado – e também não sou lá um grande trabalhador.
Ganho a vida fazendo – como é mesmo que se diz? – expedientes. Nunca fui um bandido bandido, que nem o Pedrão Biloca, batedor de carteira de mão cheia, ou o meu primo, o Zeno da Zena, que tá cumprindo 12 anos por assalto a joalheria.
Eu faço mais a linha generalista. Golpe em viúva, bilhete premiado, boa-noite cinderela, essas brincadeirinhas que depois até a vítima acha engraçado.
Mas, voltando ao assunto... Desculpa, eu tenho esse hábito de ser... Como é mesmo que se diz? Relapso? Não, peraí, deixa eu olhar no dicionário... É uma palavra tipo distraído, mas não é bem isso. Ah, taqui. Disperso. Eu sou meio disperso.
Então. Eu tava na rua prospectando oportunidades. Resolvi começar o expediente bem cedo naquele dia, apesar da chuvinha de molhar otário – no caso, eu mesmo – e do vento desgraçado nas orelhas.
Passei na feira e afanei uma manga e duas bananas, pra manter a forma. O otário do verdureiro nunca me flagrou no ato. Passo ali duas vezes por semana, não compro porra nenhuma, e o cara nunca desconfiou. Este mundo é mesmo cheio de otário.
Segui até a praia. A noite tinha sido de mudança de lua, o que significa maré cheia, o que significa um monte de lixo na areia. Vocês não imaginam o que eu já encontrei no meio daquela porcariada toda. Moeda antiga, um anel de ouro, uma escova de dente quase novinha - uso até hoje - e uma embalagem de pomada Minâncora com um bilhete dentro escrito “Branca de Neve esteve aqui”, em letra bem caprichada de mocinha.
O bom de procurar lixo na praia é que, se você não encontra nada que preste, sempre corre o risco de dar um ganho em algum otário desfilando com um tênis cheio de frufru ou com um daqueles aparelhinhos de escutar música que eu não sei o nome. Só sei que o Torquato compra por 20 mangos.
O Torquato é um baita pilantra. Você chega lá com a mercadoria e ele sempre diz que não interessa, que tá com várias iguaizinhas no estoque, tudo encalhado. Aí você baixa o preço, só falta pedir pelo amor de deus, e no final ele aceita o negócio, mas “só pra te ajudar porque tu é meu camarada”. Desgraçado. Tu vende o negócio pela metade do que vale e ainda sai de lá pensando: “cacete, esse Torquato é gente boa mesmo.” Cara, se eu fosse bandido bandido mesmo, enfiava a peixeira nesse cabra.
Mas eu já falei que não sou um bandido bandido. Sou só um merdinha que quer um pouco de paz e amor na vida. Não tenho culpa se essas coisas custam dinheiro.
Pois é. Então. Aquele dia a bagulhada da ressaca tava fraquinha. Uma pilha enferrujada, um ralo de banheiro, um monte de tampa de margarina... Não entendo porque sempre tem um monte de tampa de margarina no lixo da ressaca. Quem será o desgraçado que come tanta margarina lá em alto mar? A Pequena Sereia, o Nemo, o Aquaman?
(
continua)