Outro dia fui a Garopaba, uma hora ao Sul de Floripa, entrevistar o Marco Aurélio Raymundo, conhecido como Morongo, fundador da Mormaii. A matéria está na Exame PME deste mês e sobrou bastante material, que decidi aproveitar aqui no blog. Em 1974, médico recém-formado, Morongo se mudou de Porto Alegre para a então deserta Garopaba, onde iniciou um trabalho de atendimento à população carente. Sua única diversão era surfar... e o resto da história está contado abaixo.
Qual era o seu projeto de vida quando escolheu a medicina?Quando me formei médico, queria ir para um lugar em que pudesse fazer a diferença. Escolhi Garopaba, que era um lugar lindo, mas também muito pobre. Não havia médico na região – fui o primeiro a morar aqui. As pessoas não tinham qualquer tipo de assistência e de orientação. Faziam as necessidades no chão, para você ter uma ideia. Comecei atendendo na minha casa, sem ganhar salário de ninguém. Muitos pacientes não tinham condições de me pagar e então traziam um pouco de farinha, de mandioca, uma dúzia de ovos, se não dava uma dúzia era meia dúzia, às vezes vinham com dois, três ovinhos (risos), às vezes vinham com uma tainha. Eram muito carinhosos e eu não passei fome. Foi um momento muito feliz, muito bonito da minha vida.
A gente sempre ouve falar que Garopaba era uma colônia de pescadores que foi descoberta por hippies. Você era hippie?Sim. Eu era um médico ripanga. Até porque um médico que não fosse meio ripanga não ia fazer essa doideira de vir pra cá. Antes de me formar eu era um ripanga clássico, até na forma de me vestir.
E o surfe? Você já praticava?Sim, mas o surfe naquela época era um esporte exclusivamente de verão para quem vivia aqui no sul. Eu praticava nas férias, em Torres. Ninguém imaginava surfar durante o inverno. Morando em Garopaba, no entanto, fui notando que as melhores ondas aconteciam no inverno. Condições perfeitas. Então veio a necessidade de ter uma roupa que ajudasse a surfar no frio, porque era a minha única fonte de lazer. Só que não havia esse produto à venda no Brasil. Uns dois anos depois que eu estava em Garopaba, fui à procura de um material e fiz a minha primeira roupa. Um amigo de Imbituba viu e pediu uma igual, daqui a pouco veio outro, e outro... Até que chegou um amigo de Itajaí, o Felipe, e encomendou dez roupas para colocar à venda na loja do pai. Eu resisti, mas acabei fazendo. Em menos de um mês ele voltou dizendo que havia vendido tudo e pediu mais 50! Aí tive que começar a pensar em como produzir industrialmente.
O material já era neoprene?Tinha uma coisa bem parecida com a que se usa hoje. Esses materiais todos foram evoluindo. Por exemplo: o neoprene que a gente usa nem mais é derivado do petróleo, é feito de outras fontes. Mas na época existia uma companhia nos Estados Unidos que produzia um material usado como isolamento térmico. Como eles têm muito frio lá, precisam usar isolamento nos canos para que a água não congele e para que a água quente não esfrie muito rápido. Foi com esse material que fiz as primeiras roupas.
E como é que você, numa época pré-internet, teve acesso a essas informações?Porque já fui muita coisa na vida, inclusive instrutor de mergulho (risos). Quando eu tinha 18 anos, já era profi de mergulho. Fui contratado para um trabalho na Península de Valdez, no Sul da Argentina. Lá usei roupas para mergulho que eram muito grossas – mais de um centímetro de espessura –, mas havia um material bem mais macio e maleável na gola. Quando eu estava em Garopaba pensando numa roupa para surfar, lembrei daquele material da gola. Peguei minha Brasília velha e fiz mais de 4.500 km até Puerto Madre só para descobrir que material era aquele e como poderia comprá-lo.
Em que momento você percebeu que tinha um negócio promissor nas mãos? Foi na encomenda de 50 roupas?Sim... Porque ali eu tive que encontrar uma solução de produção em série. Fui até Caxias do Sul visitar uma empresa que fabricava uma máquina para costurar pelego, couro de ovelha para fazer tapetes. Pegavam retalhos, losangos, e a máquina era eficaz para costurar esse tipo de coisa. Eu achava que talvez pudesse servir também para costurar o neoprene. Fui lá e trabalhei durante um bom tempo com o pessoal da fábrica nas adaptações necessárias. Consegui dessa forma ter a minha primeira máquina que costurava neoprene. Mas mesmo assim não dava para continuar trabalhando sozinho. Quando começaram a vir as encomendas maiores, tive que pedir ajuda... Meus primeiros funcionários foram os meus pacientes de hanseníase. Afinal, esses aí não iam conseguir emprego mesmo. Foi quando percebi que a Mormaii poderia se transformar numa belíssima solução social para a cidade, ao gerar emprego para um monte de gente. Amenizar o problema econômico – a falta de dinheiro, a falta de emprego – seria o melhor caminho para combater o problema social e os problemas de saúde da população. Depois de alguns anos acumulando o trabalho como empresário e como médico, chegou o momento em que tive que optar. Abri mão da medicina, pois àquela altura já havia outros colegas na cidade e como empresário eu poderia fazer mais. Hoje são mais de 200 empregos diretos e várias empresas satélites que trabalham com a marca Mormaii aqui na cidade.
A escolha do nome da empresa é uma história famosa. “Mor”, de Morongo. O “i” dobrado é uma referência ao Hawaii...E o “Ma” vem de Maíra, minha primeira esposa, que me suportou por dez anos aqui em Garopaba, depois não aguentou mais e foi embora para o Hawaii, onde mora até hoje. E eu terminei me casando com uma outra mulher fantástica, que se chama Marisa. Ou seja, a gente troca de mulher mas não troca o nome da empresa.
Quais as preocupações que você tem tido para perpetuar essa marca, fazer com que a empresa sobreviva às próximas gerações...Olha, isso não me preocupa muito. Porque meu filho, que é budista, já me falou da lei da impermanência. Nada é eterno. Nem nosso planeta é eterno, nem o sol, nem nada. Então não tem essa noia de perpetuar. Tem só a obrigação de fazer bem feito enquanto for. Só isso. Essa noia de perpetuar é um dos grandes erros que nós, humanos, cometemos.
Você não está preocupado em criar conselho profissional de administração, trazer executivo profissional, essas coisas?Porra nenhuma. Profissional é a nossa atitude, como um todo. Somos extremamente profissionais. Mas, acima de tudo, estou preocupado com a qualidade de vida, minha e de quem trabalha aqui.
Você continua fazendo test-drive dos produtos da Mormaii?Pois é, continuo. E ninguém me paga hora-extra, nem adicional por insalubridade (risos)... Se você chegar no meu carro agora vai ver que está cheio de tranqueira. Terminando a nossa conversa vou direto entrar na água.