O Diracom é um coletivo de ativistas brasileiros que acreditam que o
direito à comunicação é uma condição essencial para a democracia. Bem, eles
não só acr...
terça-feira, 27 de abril de 2010
Garrafa ao mar
Ok, confesso que tenho uma motivação secreta para caminhar na praia pelo menos três vezes por semana: a esperança de encontrar uma garrafa com a mensagem de alguém distante. Sei que as chances são mínimas, mas estou fazendo o que posso para aumentá-las: além de frequentar a areia com certa regularidade, tenho ido sempre bem cedo, antes dos concorrentes. Considerando que ainda assim as probabilidades são de fato pequenas, contudo, decidi proporcionar a um desconhecido a oportunidade de viver esse momento mágico com o qual sempre sonhei. Jogarei uma garrafa ao mar com a seguinte mensagem, em português e inglês: "Olá, sou Maurício Oliveira e joguei esta garrafa na praia do Campeche, em Florianópolis, Brasil, às seis da manhã do dia 30 de abril de 2010. Envio uma foto do local para que você possa apreciar a bela paisagem. Eu realmente ficaria feliz se você pudesse escrever para o meu e-mail, que informo a seguir, relatando as circunstâncias em que encontrou esta mensagem. Saudações fraternas." (Já estou até imaginando a resposta: "Oi, Maurício. Sou seu vizinho no Campeche e encontrei a sua garrafa. Pelo jeito ela não foi muito longe, hehehe. Quer vir buscar na minha casa ou jogo no lixo reciclável?")
Vida de frila, a missão
Hoje à tarde eu iniciei os contatos para uma reportagem do Valor com deadline no dia 10, fiz ajustes pós-design em um livro que entreguei há um mês à Letras Brasileiras, corri atrás de informações para um quadro complementar à matéria que mandei ontem para a Você S/A, produzi um texto factual sobre as enchentes em Santa Catarina para o Estadão (que ligou às 14h pedindo o material para as 19h) e negociei longamente com uma assessora de imprensa a participação do assessorado na edição de estreia de uma revista. E ainda lavei a louça.
domingo, 25 de abril de 2010
Ah, tem a saideira
Usei o verbo protelar no último post e me lembrei de uma coisa. Estávamos precisando colocar rede de proteção na janela de casa e abri a lista telefônica. Uma das empresas se chamava Protelar. Protelar! Claro que o dono pensou na combinação entre as palavras "Proteção" e "Lar" e não sabia da existência de um verbo justamente com o significado que tem... Ou será que sabia e foi propositalmente dúbio? Quando um cliente ligasse para reclamar do atraso na entrega, ele poderia alegar: "Ora, ora, mas você não se deu conta, pelo nome da firma, que essa é a nossa especialidade?"
Chega de enrolação
Acho que já deu para perceber que estou protelando o meu encontro inadiável com o Leão. Mas não tem jeito, agora tenho que ir. Bom domingo! - que certamente será melhor para quem já fez a declaração...
O drama da primeira frase
Em outra crônica, o Veríssimo fala sobre a dificuldade de escrever a primeira frase de um texto. É verdade. Comigo acontece a mesma coisa. Depois que sai a primeira frase, e com ela o primeiro parágrafo, a matéria vai que é uma beleza. Começar é sempre a grande dificuldade. Diz o Veríssimo: "Gostei de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência em vez de trabalhar. Nossa desculpa é que não estamos jogando, estamos distraindo a nossa atenção enquanto pensamos. Para evitar a primeira frase tenho me concentrado nos ícones do computador e agora mesmo - toda esta crônica, como já se percebeu, é um pretexto para não escrevê-la - me dei conta de que o símbolo para tempo no computador é uma ampulheta. Não a face de um relógio ou um quartzo pulsante, uma ampulheta! Quantas dessas crianças que já nascem com um notebook embaixo do braço sabem o que é uma ampulheta? E no entanto ali está ela, a única maneira que o computador encontrou de nos dizer para esperar um pouquinho. Um anacronismo desconcertante. Eram ampulhetas que os escritores de antigamente tinham ao seu lado, para lembrá-los dos prazos de entrega enquanto afiavam o cálamo. No fundo, mudou tudo no nosso ofício menos a angústia."
O medo de não ter o que ler
O que mais admiro no Luis Fernando Veríssimo é a capacidade de transformar os temas mais banais em uma escrita leve e saborosa. Numa crônica chamada "Fobias", ele discorre sobre o medo de não ter o que ler. "Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham 'frio' e 'quente' escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo." E o texto segue na mesma balada, sem que a gente desarme o sorriso um segundo sequer. A gente deve fazer uma tremenda cara de bobo quando lê o Veríssimo.
O prazer de ter feito um bom negócio
Citei outro dia que estou lendo uma coletânea de crônicas do Rubem Braga, As boas coisas da vida. Trouxe esse livro do sebo, junto com outros nove, em uma troca. Desde a mudança eu tinha duas caixas cheias com livros, revistas e CDs dos quais desejava me livrar. Aí conheci aquele sebo do Pantanal citado alguns posts atrás, onde comprei LPs para a futura festa da Cris. Naquela ocasião perguntei ao rapaz que trabalha lá se havia interesse na troca e ele disse que sim. Levei as caixas, ele avaliou cuidadosamente peça por peça e descartou apenas algumas revistas mofadas e uns CDs riscados. Quando me disse o valor ao qual eu teria direito em mercadorias, quase caí para trás: R$ 157. Sempre tive a impressão de que os sebos eram muito exploradores nesse tipo de negócio, mas desta vez estava valendo a pena. Escolhi dez livros, metade deles de crônicas, e ainda fiquei com R$ 51 em crédito, à espera da renovação do acervo que eu desfalquei consideravelmente. Na primeira semana devorei três ao mesmo tempo - além do Braga, os dois outros foram Banquete com os deuses, de Luís Fernando Veríssimo, e O romance morreu, do Rubem Fonseca, todos em excelente estado (o que pertencia ao Gui posso assegurar que nunca havia sido folheado). Fico feliz ao lembrar que ainda há sete na fila e mais uns cinco que terei com o crédito restante.
Ainda bem que está chovendo
Porque hoje, sem a menor chance de adiamento, preciso dar conta da declaração do Imposto de Renda, a tarefa mais chata que os burocratas já foram capazes de criar. Para completar a maldição, no ano passado aconteceu de tudo o que pode acontecer na vida financeira de uma família. Além da minha condição de frila, já complexa por si só, a Cris trocou de emprego, construímos uma casa, pegamos empréstimos, trocamos de plano de saúde, financiamos carro, Lauro e eu fizemos tratamento ortodôntico etc etc. Passei o sábado procurando a papelada. Acho que a gente devia descontar do imposto esses dois dias de trabalho.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
O meu primeiro jornalista
Já que o Rubem Braga contou a primeira vez dele, vou contar a minha - acho que a história não é inédita aqui no blog, mas, que diabos, depois de quase 850 posts o leitor há de perdoar certas redundâncias. O primeiro jornalista que conheci era um tremendo picareta. Eu devia ter uns 10 anos quando meu irmão Beto foi o vencedor em Santa Catarina de um concurso de redações chamado "Maratona Cívica", disputado entre todos os estudantes de escolas públicas do país. Quando ele voltou da etapa final, que reuniu no Rio de Janeiro os vencedores estaduais, foi homenageado pela Câmara de Vereadores por levar o nome de Araranguá além dos limites do Vale do Araranguá, algo que raramente acontecia. A rádio Tubá, do município vizinho de Tubarão, mandou um correspondente para acompanhar o evento. Ele deve ter achado a pauta fraquinha e resolveu dar uma esquentada - ou melhor, jogou álcool em cima e tacou fogo. Gravou entrevistas não apenas com o Beto, mas também comigo e com o meu outro irmão, o Marcus. No dia seguinte, quando fomos ouvir a matéria, a chamada era a seguinte: "Irmãos de Araranguá tiram primeiro, segundo e terceiros lugares em concurso nacional de redação." Eu mal havia ficado entre os cinco selecionados da minha sala...
O primeiro jornalista de Braga
"Ocorre-me contar qual foi o primeiro jornalista que conheci em minha vida. Eu era muito jovem e, vindo de Cachoeiro, me hospedei na pensão de uma tia minha, na Rua São Pedro - rua que por sinal não existe mais, tragada que foi pela Avenida Presidente Vargas. Havia lá um senhor que me disseram ser jornalista. Tomei coragem e puxei conversa com ele. Chamava-se Esopo, tocava flauta e trabalhava na redação da Noite - um jornal importantíssimo na época. Perguntei-lhe o que ele escrevia, e ele me disse que, entre outras coisas, era encarregado de redigir o 'Canhenho Fúnebre' do jornal. Era um homem solitário, simples, e seu problema era poder tocar flauta em um horário que não incomodasse os outros hóspedes. Várias vezes mudara de pensão por causa disso. Confesso que tive uma pequena decepção com essa figura de jornalista (eu imaginava que todos fossem gênios e escrevessem coisas lindas), mas ainda assim fiquei com uma certa admiração e estima pelo sr. Esopo, sua flauta e seu canhenho."
O meu Nathaniel Ayers
Século passado, quando eu era repórter do jornal A Notícia, também encontrei o meu músico-de-rua-de-estimação, o Cândido do Saxofone.
As boas histórias estão por aí
Acabamos de ver O Solista. É um filme baseado em um livro do jornalista Steve Lopez, do Los Angeles Times, sobre um promissor músico erudito que teve a carreira interrompida pela esquizofrenia e passou a viver nas ruas. O filme me fez pensar, como jornalista, na imensidão de histórias que estão por aí, prontas para serem reveladas. Nessas horas sinto uma tremenda falta do jornalismo diário, que nos faz mergulhar nas entranhas da cidade e nos conduz naturalmente a essas boas histórias. É por isso que um livro de perfis está entre os meus muitos projetos para o futuro.
Obrigado, Gui!
"Vejo toda uma horda de siris minúsculos, cada um erguendo no ar uma puã única, mas do tamanho de seu corpo. Com essa patola gigantesca para seu talhe, esse caranguejinho parece um pequeno povo que gasta em armamento toda a sua receita." (Rubem Braga, em As Boas Coisas da Vida). Confesso que fico com inveja quando leio metáforas brilhantes como essa. E pensar que o destrambelhado do Gui teve coragem de passar adiante um livro do Rubem Braga com dedicatória da própria mãe!
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Vã esperança - ou mãe é mãe
Dedicatória escondida sob a orelha do livro comprado no sebo: "Gui, espero que este seja apenas o primeiro! Beijos. Mãe. 23/05/2003"
domingo, 18 de abril de 2010
A headhunter que leva a vida na flauta
Conversei há pouco, para uma matéria que preciso fechar amanhã, com a headhunter Laís Passarelli, minha fonte há um bom tempo - foi uma das entrevistadas do meu livro "Na mira dos headhunters", publicado em 2001. Trocamos algumas mensagens por celular ao longo do final de semana para combinar a conversa, que ficou para o inusitado horário das 21h30 de domingo - tanto eu como ela estaríamos em lugares sem sinal de celular antes disso, e a segunda-feira já começaria cheia de compromissos para ambos. Claro que esse é o tipo de arranjo que só se faz com uma fonte com a qual já se construiu certo nível de relacionamento. Além de ser um doce de pessoa e muito competente e bem informada em seu métier, a Laís me surpreendeu há algum tempo ao contar que não apenas conhecia o "meu" flautista Patápio Silva (algo tão raro quanto o Bernardinho perder um título), como também que ela própria tocava flauta e adorava executar "Zinha", uma das mais importantes obras patapianas.
Sobre as coincidências que nada significam
TV ligada hoje pela manhã na final da liga feminina de vôlei. O narrador citou em determinado momento o técnico do Osasco.
- Ele tem o mesmo nome do meu irmão, Leuzemar - disse meu sogro.
- Tive a impressão de ter ouvido "Luiz Omar", respondi.
E o assunto morreu ali, afogado em sua completa irrelevância para o destino da humanidade.
Agora à noite vi "Abraços partidos", de Almodóvar, e as legendas finais revelaram que o nome do ator protagonista é Lluís Homar. Tremenda coincidência, hã?
O que isso tudo quer dizer? Absolutamente nada. A não ser que alguém consiga transformar a história em um bom palpite para o jogo do bicho.
Mas que as pequenas e irrelevantes coincidências do cotidiano são fascinantes, ah, isso são.
P.S.: para escrever este post, pesquisei o nome do técnico de vôlei: Luizomar de Moura - que, a propósito, merece os parabéns, pois hoje conseguiu roubar um título do Bernardinho, coisa rara.
- Ele tem o mesmo nome do meu irmão, Leuzemar - disse meu sogro.
- Tive a impressão de ter ouvido "Luiz Omar", respondi.
E o assunto morreu ali, afogado em sua completa irrelevância para o destino da humanidade.
Agora à noite vi "Abraços partidos", de Almodóvar, e as legendas finais revelaram que o nome do ator protagonista é Lluís Homar. Tremenda coincidência, hã?
O que isso tudo quer dizer? Absolutamente nada. A não ser que alguém consiga transformar a história em um bom palpite para o jogo do bicho.
Mas que as pequenas e irrelevantes coincidências do cotidiano são fascinantes, ah, isso são.
P.S.: para escrever este post, pesquisei o nome do técnico de vôlei: Luizomar de Moura - que, a propósito, merece os parabéns, pois hoje conseguiu roubar um título do Bernardinho, coisa rara.
sexta-feira, 16 de abril de 2010
A terceirização ideal
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Mea culpa
Andei reclamando das assessorias de comunicação, mas ontem e hoje tive algumas experiências excelentes.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Se você ainda tem toca-discos...
... Mora em Floripa e acha, como eu, que os CDs não chegam aos pés dos velhos LPs em termos de fidelidade de reprodução, aí vai uma dica: um sebo do Pantanal (ali na subidinha da Antônio Edu Vieira, tá ligado?) acabou de colocar dezenas de títulos clássicos à venda por R$ 2 cada. Levei Pink Floyd (nada menos que The Wall), A-ha, Blitz e Menudos, já pensando no aniversário de 40 anos da Cris, em novembro, que terá festa-revival dos anos 80. A propósito, olha que bacana.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Um tema que muito me interessa
O Valor de hoje tem reportagem minha sobre as oportunidades que o mercado brasileiro deverá proporcionar nos próximos anos a profissionais especializados em energia renovável. Tenho tido a sorte de fazer uma série de matérias relacionadas a questões ambientais - o que muito me apetece, pois tenho dois filhos e o futuro do mundo me interessa pessoalmente. Na mesma edição do jornal, a propósito, tem uma matéria chiquérrima da minha amiga Roberta "Projetinho de Vida" Lippi, diretamente de Nova York, sobre a presidente da Avon, Andrea Jung.
domingo, 11 de abril de 2010
Acerte a resposta e ganhe um livro
Se dei bem! Finalmente encontrei alguma vantagem em ter um despertadorzinho como a Lígia acordando bem cedo em pleno domingo: ganhei o livro oferecido pelo Fifo! Êba! Inspirado na ideia do nobre amigo, resolvi fazer também um concurso do gênero, só que com requintes de crueldade. Quem disser primeiro aí nos comentários que lugar de Floripa é este que aparece na foto ganhará um exemplar do meu livro Patápio Silva, o Sopro da Arte, que está no prelo e será lançado em data ainda a confirmar de maio. Cada participante só tem direito a uma tentativa por dia e não vale nada genérico: tem que ir direto ao ponto na descrição do lugar.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Troquem o disco
A falta de transparência de muitas assessorias de imprensa anda me irritando um bocado. A versão oficial quando a empresa não quer dar a entrevista solicitada é sempre a de que "o porta-voz está viajando ou não tem agenda". E aí a gente fica insistindo, prorrogando o prazo, gastando vela com defunto ruim... Por que não dizem logo e claramente que a empresa não quer se pronunciar sobre o assunto e ponto final? Toda fonte tem o direito de escolher se vai ou não falar - logo, não há a menor necessidade de mentir. Acabei de pegar uma grande empresa de assessoria de São Paulo no contrapé: eu já sabia que um determinado executivo topava ser personagem de uma matéria, mas ele precisava ter a autorização da área de comunicação da empresa. Entrei em contato com a assessoria e depois de algum tempo lá veio o bla-bla-blá sobre a falta de agenda do executivo, quando, na verdade, a empresa simplesmente não gosta que os seus funcionários apareçam, talvez para não chamar a atenção dos concorrentes - que falta de confiança no próprio taco, hein?
Malacolândia
Malacocultura é o termo que define o cultivo de moluscos, mas em Floripa ganhou definitivamente outro significado. Impressionante o que tem de malaco por aí.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Carpe diem
Sim, sim, eu sei que estou chato com esse papo todo. Mas é que a vida desfila diante de nós a passos acelerados e temos que aproveitar cada dia.
Círculo virtuoso
Vantagem número um: sair para caminhar cedo obriga você a dormir mais cedo. Vantagem número dois: dormir mais cedo obriga você a administrar melhor o tempo para dar conta de tudo até determinada hora. Vantagem número três: a manhã rende que é uma beleza. Vantagem número quatro: caminhar logo ao amanhecer significa passar em frente à feira e fazer a festa com frutas fresquinhas (ops, virou língua do efe). Vantagem número cinco: as pessoas que estão pela rua bem cedo são mais simpáticas e até cumprimentam a gente. Vantagem número seis: a atividade física induz a tomar mais água e a constatar como água é bom (refrigerante, de agora em diante, só muito de vez em quando). Vantagem número sete: começar o dia vendo e ouvindo o mar é uma tremenda vantagem competitiva.
Concerteza
Às vezes fico lendo os comentários de alguns blogs das mais diversas linhas - Kotscho, Juca Kfouri, Vivi Mascaro - só para constatar como há gente idiota, preconceituosa e com dificuldade para se expressar. Por que não consultam o dicionário antes de escrever asneiras como "concerteza"?
Ilha do Campeche
terça-feira, 6 de abril de 2010
Alvoradas oníricas
Sair para caminhar, correr ou pedalar às seis da matina é maravilhoso. Estou tentando incorporar esse hábito à minha rotina depois que mudamos para o Campeche, embora os frequentes períodos de acúmulo de trabalho atrapalhem um bocado. Daqui de casa são dois quilômetros pelo calçadão até chegar àquela lindeza toda de praia, com uma das mais largas faixas de areia de Floripa e a imponente Ilha do Campeche bem à frente. Anteontem testemunhei o deslumbrante nascer do sol que ilustra este post. Hoje, com o vento forte, a areia fina da praia formava uma suave bruma em constante movimento. Que surpresa terei da próxima vez?
terça-feira, 30 de março de 2010
A ostrinha tá a mil
Parece que a Lígia produz mais pérolas quando estamos só eu e ela. Deixei a menina se divertindo na banheirinha de plástico - ela gosta de ficar brincando com os patinhos de borracha - e vim trabalhar na sala ao lado. Aí um som repentino de splash deu a impressão de que a pequena havia escorregado.
- Cuidado pra não cair!, gritei daqui.
E ela, querendo dizer que não havia sido nada grave:
- Caí só de madurinha!
- Cuidado pra não cair!, gritei daqui.
E ela, querendo dizer que não havia sido nada grave:
- Caí só de madurinha!
O batismo de uma boneca
A Lígia achou no fundo da gaveta uma boneca de pano que eu trouxe de João Pessoa há uns dois anos.
- Qual o nome dela? - perguntou, entusiasmada com a descoberta.
- Não sei, filha. Você escolhe.
- Josézinha!
- Qual o nome dela? - perguntou, entusiasmada com a descoberta.
- Não sei, filha. Você escolhe.
- Josézinha!
domingo, 28 de março de 2010
Diário de um distraído
Doutor, eu vivo com arranhões e manchas roxas pelo corpo e não tenho a menor idéia de como foram adquiridos. Levanto da cadeira para buscar algo, dou cinco passos e fico olhando pateticamente para o armário tentando lembrar o que me levou até ali. Quando me agacho embaixo da escada para deixar o notebook em lugar seguro, penso antes de me abaixar que não posso esquecer que há uma escada ali. Mesmo assim... Ploft. Fiz uma casa cercada de portas de vidro e, embora eu saiba muito bem disso, continuo dando com a cara nelas dia sim, dia não. Nunca lembro se desliguei o ferro de passar roupa e volto da esquina para conferir - o mais incrível é que, ainda que jamais tenha encontrado o ferro ligado nessas ocasiões, continuo ficando em dúvida e voltando da esquina. Entro no e-mail com um objetivo específico, que me foge completamente no período entre iniciar a digitação da senha e acabar a digitação da senha. Em minha própria defesa, posso dizer que às vezes até lembro de olhar para os dois lados antes de atravessar a rua e pago uma ou outra conta em dia. Doutor, seja sincero: eu tenho cura?
Noite por demais agradável
Há amigos que você fica um tempão sem ver, mas gostaria de ver o tempo todo. Outros dos quais você já é íntimo mesmo sem conhecer pessoalmente - coisas da internet -, e outros que provocam empatia imediata tão logo você os vê pela primeira vez. Na noite de sábado desfrutei simultaneamente desses três tipos de amizade. Ocasião rara.
Bons tempos alviverdes
Que disputa sensacional está ocorrendo no Campeonato Paulista entre dois times fantásticos: o Santos de Robinho, Neymar, Ganso & Cia e o Palmeiras... de 1996. Com a goleada de hoje sobre o Monte Azul, por 5 a 0, o Santos chegou a 54 gols em 17 jogos, média de 3,18 gols por partida. O Palmeiras de 1996 foi campeão com a incrível marca de 102 gols em 30 jogos, média de 3,4 por partida. Olha só quanto craque: Luisão fez 22 gols; Rivaldo, 18; Djalminha e Müller, 15 cada. Nas laterais, Cafu e Júnior. Até o zagueiro Clebão virou artilheiro e fez sete gols. Alguns jogos da campanha: 8 a 0 no Botafogo de Ribeirão Preto, 7 a 1 no Novorizontino, 6 a 0 no América, 6 a 1 na Ferroviária, 5 a 0 no União São João, 5 a 1 na Ferroviária e no Juventus... Ah, teve também o histórico 6 a 0 no Santos em plena Vila Belmiro. Durante o Paulistão, o Palmeiras fez ainda três jogos pela Copa do Brasil: 8 a 0 no Sergipe, 5 a 0 no Atlético Mineiro e 3 a 1 no Grêmio. A principal diferença em relação ao Santos de hoje é a defesa: enquanto o Palmeiras de 1996 sofreu apenas 19 gols em 30 jogos, o Santos já levou 21 gols em 17 jogos. Lembrando da campanha alviverde de 1996 dá para entender bem a revolta do goleiro Marcos com o desempenho do time atual, que amarga a décima posição na tabela (o pior desempenho do Palmeiras no Paulistão desde 1981): ele estreou justamente na 27ª partida do campeonato de 1996, 4 a 0 sobre o Botafogo de Ribeirão Preto. Que saudade, hein, Marcão?
quinta-feira, 25 de março de 2010
Lauro é doze
Há exatos 12 anos recebi o maior presente que um homem pode receber: tornei-me pai. Agora recebo todos os dias o maior presente que um pai pode receber: um filho maravilhoso. Parabéns, Lauro. Tu és o cara. P.S.: como a Cris postou uma foto nova do menino, optei por uma antiga.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Como tem desocupado no Brasil
Em solidariedade aos colegas jornalistas, eu deveria achar um absurdo esses caras que fazem gracinha atrás dos repórteres de TV. Mas que de tão idiota chega a ser engraçado, isso lá é verdade.
Não se curve aos bancos
Há alguns anos, quando estávamos reformando nosso ex-apartamento, entrei no cheque especial. Logo percebi que os valores cobrados pelo banco não batiam com a taxa de juros anunciada. Entrei em contato, me explicaram algo como "isso acontece porque o cálculo é diário, e não mensal", continuei sem entender nada e procurei um advogado especializado em direito bancário. Ele me disse que já era consenso na Justiça que os bancos cobram juros abusivos e que essa era uma causa praticamente ganha. Dito e feito. Entrei com duas ações. A primeira já vencemos em primeira e segunda instâncias e o banco desistiu de ir adiante. Agora só falta calcular o valor a ser ressarcido. Não é difícil chegar à conclusão de que continuam cobrando juros abusivos porque o volume de processos ainda não se tornou tão significativo e ainda vale a pena para eles - nunca antes na história deste país os bancos foram tão lucrativos. Eu gostaria de não contribuir para sobrecarregar ainda mais o nosso já combalido Judiciário, mas, se você está no vermelho e só vê a dívida aumentar mês após mês, fica a dica.
terça-feira, 23 de março de 2010
Sim, sim. E o Tonhão foi melhor que o Ademir da Guia
Baseado em um modelo matemático de credibilidade altamente contestável, Dunga está dizendo em seu site que foi melhor do que Gérson, o canhotinha de ouro. (Risos abafados.) A notícia está na seção Bar do Dunga, título que tenta criar empatia com o internauta. Mas não rola, né? Quem é que gostaria de ir para o boteco com um sujeito ranzinza, grosseiro e se-achão?
Palpite para a Copa
Com a má fase dos principais jogadores brasileiros, o favoritismo da nossa seleção na Copa do Mundo está indo pelo ralo. Muito se tem falado na Argentina - Messi, Tevez & cia andam arrebentando nos campeonatos europeus -, a Espanha já vem bem há algum tempo (embora tenha a fama de refugar na hora do vamos ver) e tanto Itália quanto Alemanha não podem ser desprezados, mas o meu palpite é a Inglaterra. O tal do Rooney é um demônio, em todos os sentidos - ô bicho feio -, e o time é bem competitivo.
Ingrid e o tempo-hora
Aos três anos a pessoa fala muitas coisas engraçadas. A Lígia, por exemplo. Estávamos conversando e eu repeti a mesma frase algumas vezes, de brincadeira. E ela:
- Por que você fala isso tempo-hora?
Concluí que ela misturou "o tempo todo" com "toda hora".
Aí o Lauro lembrou de uma historinha dele mais ou menos com a mesma idade, talvez um pouco mais velho. Estávamos na trilha da Costa da Lagoa e eu alertei quem vinha atrás para tomar cuidado com a ladeira íngreme que viria pela frente. Alguns segundos depois, o menino concordou:
- Aqui é bem Ingrid, né, pai?
- Por que você fala isso tempo-hora?
Concluí que ela misturou "o tempo todo" com "toda hora".
Aí o Lauro lembrou de uma historinha dele mais ou menos com a mesma idade, talvez um pouco mais velho. Estávamos na trilha da Costa da Lagoa e eu alertei quem vinha atrás para tomar cuidado com a ladeira íngreme que viria pela frente. Alguns segundos depois, o menino concordou:
- Aqui é bem Ingrid, né, pai?
segunda-feira, 22 de março de 2010
Cinco personagens clássicos de rodoviária
1. O doido que fica encarando as pessoas sem piscar e de vez em quando faz coisas inesperadas, tipo comer farinha ou cantar o hino do Avaí todo errado.
2. O menininho que pede esmola em versos e engole o final das frases.
3. O surdo que tem a mãe doente e dezesseis irmãos para cuidar, mensagem escrita em um papelzinho amassado e imundo.
4. A velhinha que não enxerga bem e pede ajuda para achar o ônibus, que por acaso é o mesmo que o seu, e depois para achar a poltrona, que por acaso é bem ao lado da sua.
5. O hare-krishna que tem a missão de converter as pessoas e cisma que você tem cara de quem precisa ser convertido.
2. O menininho que pede esmola em versos e engole o final das frases.
3. O surdo que tem a mãe doente e dezesseis irmãos para cuidar, mensagem escrita em um papelzinho amassado e imundo.
4. A velhinha que não enxerga bem e pede ajuda para achar o ônibus, que por acaso é o mesmo que o seu, e depois para achar a poltrona, que por acaso é bem ao lado da sua.
5. O hare-krishna que tem a missão de converter as pessoas e cisma que você tem cara de quem precisa ser convertido.
domingo, 21 de março de 2010
Vaga para jornalista
Acabo de cruzar por acaso com a informação: abrem amanhã inscrições para concurso da Fundação Catarinense de Cultura. Tem uma vaga para jornalista em Floripa, com salário inicial de R$ 1.600. Não é o paraíso, mas, para quem preza estabilidade e gosta de atuar na área da cultura... Informações aqui.
Dúvida cruel
Com um monte de milhas vencendo em abril, eu e a Cris teremos que escolher algum canto da América do Sul para uma viagem rápida, de dois ou três dias. Eu adoraria levá-la a dois lugares que considero deslumbrantes - Natal e Belém -, mas gostaria também de aproveitar a chance para ir a Vitória ou a São Luís, duas das oito capitais brasileiras que ainda não conheço. E tem sempre o apelo de Buenos Aires, além da vontade de conhecer outros países do continente... Meu consolo é que provavelmente a companhia aérea vai acabar escolhendo por nós, pois duvido que haja assentos disponíveis para todos esses lugares.
sábado, 20 de março de 2010
Good day sunshine
Como dá para perceber pelo horário do post anterior, acordei bem cedo em pleno sábado. É que a Lígia não dá trégua e continua madrugando mesmo nos finais de semana (hoje foi às 6h40). Mas eu gosto de ver o sol nascer - o dia rende um bocado. Eu, que frequentemente trabalhava de madrugada, estou conseguindo aos poucos readaptar meu cotidiano de frila para dormir mais cedo e acordar mais cedo. Bem mais saudável, sem dúvida.
Clipadoras, blogs e direitos autorais
A mesma edição do Valor traz uma matéria, assinada por Matías Molina, sobre a queda na circulação de jornais no Brasil. Um dos motivos citados é a proliferação das empresas "clipadoras", que simplesmente se apropriam do trabalho alheio para ganhar dinheiro - estima-se que o faturamento do segmento no Brasil chegará a R$ 60 milhões neste ano. Essas empresas extraem dos jornais e revistas as reportagens que consideram interessantes para os clientes e as enviam para dezenas ou mesmo centenas de destinatários. A lei 9.610, de 1998, deixa claro que depende de "autorização prévia e expressa" a reprodução parcial ou integral de uma obra, assim como a sua distribuição por qualquer sistema. Quando se discute a questão dos direitos autorais, contudo, as clipadoras costumam evocar o inciso VI do artigo 46 da mesma lei: "não constitui ofensa aos direitos autorais a reprodução na imprensa diária ou periódica, de notícia ou de artigo informativo, publicado em diários ou periódicos, com a menção do nome do autor, se assinados, e da publicação de onde foram transcritos". As clipadoras tentam convencer a todos que os relatórios que produzem, conhecidos como clippings, são órgãos da "imprensa diária ou periódica". Outro problema que está ganhando proporção semelhante são os blogs pessoais, que também reproduzem as matérias a torto e a direito. Um exemplo é a minha própria reportagem publicada ontem - como a edição de sexta do Valor vale também para o final de semana, o texto ainda está em plena circulação no jornal e já foi reproduzido em mais de 50 sites.
sexta-feira, 19 de março de 2010
A adrenalina do deadline
Ontem à tarde voltei a sentir a pressão do prazo fungando no meu cangote, algo não muito comum na vida de frila. Às duas e meia estava fazendo a última entrevista para uma matéria do Valor, que supostamente eu teria o resto do dia para escrever com calma, mas logo em seguida fui avisado de que o texto entraria na edição de hoje e eu teria que enviá-lo até as quatro. Uma hora para produzir 8 mil caracteres! Apesar da correria, o tema era agradável ("Empresas querem dar sentido ao trabalho") e acho que o resultado ficou bom, embora tenha passado um erro de concordância e algumas repetições desnecessárias de palavras em uma mesma frase ou em frases próximas - detesto quando isso acontece.
quarta-feira, 17 de março de 2010
A volúvel internet
Três posts atrás, citei o link do colégio em que Carlos Eduardo Sundfeld Nunes - acusado de ter matado o cartunista Glauco e seu filho Raoni - estudou na adolescência. Um amigo acaba de me dizer que entrou no link e o nome não aparece na turma de 2000, conforme eu havia anunciado. De fato, parece que o nome foi retirado da lista. Mas ainda pode ser visto: basta fazer uma pesquisa no google com os termos "colégio hugo sarmento" e "carlos eduardo sundfeld nunes".
Fragmentos da vida de frila
Lígia no deque. Uma libélula se aproxima e voa ao redor da menina, como se a estivesse convidando para brincar. Digo isso à minha pequena, que responde com aquele sorriso especial que só ela sabe dar. O olhar fascinado que acompanha as peripécias da nova amiga se entristece quando a bichinha voa para longe.
- Por que ela foi embora?, perguntou Lígia, segurando o choro.
- Porque ela é livre e pode voar para qualquer lugar. Acho que ela foi brincar com outra criança.
- Depois ela vem brincar comigo de novo?
- Vem sim, filha, claro que vem.
Fofura do papai.
- Por que ela foi embora?, perguntou Lígia, segurando o choro.
- Porque ela é livre e pode voar para qualquer lugar. Acho que ela foi brincar com outra criança.
- Depois ela vem brincar comigo de novo?
- Vem sim, filha, claro que vem.
Fofura do papai.
terça-feira, 16 de março de 2010
Assim falavam Zaca e Truta (IV)
Atenção: Faleceu há pouco, num trágico acidente automobilístico, o grande escritor Paulo Macaco, que vinha conduzindo com brilhantismo a odisséia de Zaca e Truta. Para homenageá-lo, publicaremos o encerramento da saga, encontrado numa das gavetas de sua saudosa escrivaninha. São momentos de grande emoção. Aconselhamos que as pessoas mais sensíveis se retirem da sala.
"Esta contribuição que de mim recebeste,
humanidade,
certamente não deixará saudade.
Trabalho feito com genialidade,
apesar de não ser nenhuma novidade.
Muito antes dele já se havia
feito muita porcaria."
A Profeta do Apocalipse Editora lamenta que você tenha comprado este livro e que o autor tenha morrido antes de concluir a obra.
O EDITOR
"Esta contribuição que de mim recebeste,
humanidade,
certamente não deixará saudade.
Trabalho feito com genialidade,
apesar de não ser nenhuma novidade.
Muito antes dele já se havia
feito muita porcaria."
A Profeta do Apocalipse Editora lamenta que você tenha comprado este livro e que o autor tenha morrido antes de concluir a obra.
O EDITOR
segunda-feira, 15 de março de 2010
Google pauteiro
Não estou acompanhando o noticiário sobre o assassinato do cartunista Glauco, mas hoje fiquei curioso em saber mais sobre o acusado, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, já que o nome soa um tanto aristocrático. Acabo de fazer uma rápida investigação por conta própria. Para tentar encontrar alguma coisa sobre o rapaz que já estivesse na internet antes do crime, dei uma busca no nome dele excluindo ocorrências em que houvesse a palavra "Glauco" - a opção "pesquisa avançada" do Google oferece esse recurso. Com isso, eliminei a maior parte das notícias sobre o crime e descobri que Carlos Eduardo estudou em um colégio da Vila Madalena, em São Paulo, onde concluiu a oitava série em 2000. É uma informação interessante para quem está cobrindo o assunto, pois ali há vários nomes de colegas de classe que poderiam eventualmente falar sobre a adolescência do rapaz. Outro achado curioso é a árvore genealógica da família, que induz a várias outras descobertas. Claro que sempre há a possibilidade de se tratar de um homônimo (embora neste caso o nome seja raro e a idade atual do rapaz, 24 anos, coincida com a de alguém que fez a oitava série em 2000), de tal forma que essas informações serviriam, obviamente, apenas como ponto de partida para a investigação jornalística.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Ufa-le-lê
Terminei nesta semana dois projetos pessoais que estavam ocupando parte do meu tempo: fiz as últimas revisões do livro sobre Patápio Silva, que está prontinho para ir para a gráfica, e entreguei o primeiro copião do livro sobre a vida de frila, para análise da editora. Aviso aqui sobre os respectivos lançamentos, claro.
Gente que faz
Amanhã é dia de prestigiar o trabalho dos amigos. Primeiro, a Adri Canan: ao meio-dia, será exibida pela RBS TV a parte inicial do documentário "Mulheres da Terra" (a conclusão vai ao ar no sábado seguinte, no mesmo horário). Depois é a vez do casal Vanderléia Will e Pepe Nuñez - ela sobe ao palco e ele dirige a comédia "De malas prontas", às 21 horas, no Teatro Álvaro de Carvalho (haverá outra sessão no domingo, mesmo horário).
Baixo astral
Cada vez que tomamos conhecimento de fatos como os assassinatos do cartunista Glauco e do filho dá vontade de desistir do Brasil, da humanidade, de tudo.
terça-feira, 9 de março de 2010
O apartheid do Twitter
Não tenho nenhuma crítica ao Twitter em si e muito menos a quem aderiu a ele, por motivação profissional ou mero divertimento. O que eu quis dizer aqui algumas vezes é que, para mim, no atual momento da minha vida, o eventual retorno prático não compensaria o tempo investido (é o que esta matéria do IDG Now! chama de ROI, sigla em inglês para Retorno Sobre o Investimento). O que percebo em relação a tudo isso, no entanto, é que está se criando uma espécie de apartheid (o termo é forte, mas decidi usá-lo assim mesmo) entre usuários e não-usuários do Twitter. Os tuiteiros tendem a se fechar cada vez mais dentro do seu universo de contatos, enquanto os não-tuiteiros, de certa forma deixados de lado, tendem a estreitar vínculos entre si. E digo mais: os tuiteiros que lerem este post vão achar que estou exagerando e que não é bem assim, mas os não-tuiteiros vão concordar, pois sentem o que estou descrevendo.
E eu nem sei nadar
Não sou especialista em meio ambiente e muito menos em água (aliás, não sou especialista em coisa alguma), mas acabo de lembrar que há alguns anos fui finalista de outro prêmio de jornalismo, o Ethos, com uma matéria também sobre a questão da água, escrita para a revista Expressão em parceria com o Fábio Cunha.
E se faltar água?
Fui comunicado há pouco que estou entre os finalistas da primeira edição do Prêmio Fiema de Jornalismo, cujos vencedores serão anunciados durante a Feira Internacional de Tecnologia para o Meio Ambiente, no final de abril, em Bento Gonçalves (RS). A matéria finalista é sobre as alternativas para enfrentar a anunciada escassez de água potável no mundo, que fiz para um especial de sustentabilidade da Exame e que pode ser parcialmente lida aqui. Só o fato de ficar entre os 29 finalistas, selecionados entre 367 trabalhos inscritos, já é gratificante - ainda mais diante dos concorrentes de peso na categoria Revista, que incluem o colega da UFSC Marques Casara. Abaixo, a lista dos finalistas divulgada pela organização do Prêmio (sem os nomes dos respectivos veículos):
Telejornalismo
Analice Bolzan – Carvão: o preço do desenvolvimento
Evandro Siqueira – Na trilha dos palmiteiros
Fábio Fetter – Ações sociais no Morro do Papagaio
Marcelo Siqueira – Pesca Ilegal
Ticiana Villas Boas – A Rota do Lixo
Documentário
Cristina Dias – Contracorrente, nas águas de um Rio Pardo
Hellen Santos – Terra, vida ou morte
Nilton Schüller – Abastecimento de água na Serra
Virginia Queiroz – A baleia Jubarte
Texto Revista
Aline Ribeiro – Vida longa para o longa vida
Andreas Müller – O clima vai pesar
Marques Casara – Devastação S.A.
Maurício Oliveira – O mais precioso dos líquidos
Texto Jornal
Cleber Tentardini – Estudo aponta riscos de poluição e redução do Aquífero Guarani
Lilia Maris Nascimento – Queda no preço da sucata põe reciclagem em risco
Pablo Hernandez – A irrigação quando realizada de forma racional reduz custos e aumenta a produtividade das lavouras
Soraya Aggege – Caos no clima
Rádio
Cláudio Junqueira – O lixo em São Paulo – problema e oportunidade
José Renato da Silva Freitas Andrade Ribeiro – A máfia do agrotóxico
Rhubbhen Mhatteu de Melo Sampaio Lins – Capibaribe, a capivara do Nordeste
Tales Giovani Armiliato – Reciclagem: do sustento à proteção ambiental
Web
Isabela Vieira - Caiçaras
Paula Schver – Prata do Lixo – o valor da latinha de alumínio para a sociedade
Tatiana Campos – Castanha do Acre
Foto
Carlos Queiroz – Aves migram para o Parque da Lagoa do Peixe
Hélvio Romero – Resíduos presos à vegetação do Rio Tietê
Raphael Freire Alves – Cheia nos rio do Amazonas
Raphael Freire Alves - Manaus castigada
Sérgio Menezes – Corte ilegal de árvores em Tanabi
Telejornalismo
Analice Bolzan – Carvão: o preço do desenvolvimento
Evandro Siqueira – Na trilha dos palmiteiros
Fábio Fetter – Ações sociais no Morro do Papagaio
Marcelo Siqueira – Pesca Ilegal
Ticiana Villas Boas – A Rota do Lixo
Documentário
Cristina Dias – Contracorrente, nas águas de um Rio Pardo
Hellen Santos – Terra, vida ou morte
Nilton Schüller – Abastecimento de água na Serra
Virginia Queiroz – A baleia Jubarte
Texto Revista
Aline Ribeiro – Vida longa para o longa vida
Andreas Müller – O clima vai pesar
Marques Casara – Devastação S.A.
Maurício Oliveira – O mais precioso dos líquidos
Texto Jornal
Cleber Tentardini – Estudo aponta riscos de poluição e redução do Aquífero Guarani
Lilia Maris Nascimento – Queda no preço da sucata põe reciclagem em risco
Pablo Hernandez – A irrigação quando realizada de forma racional reduz custos e aumenta a produtividade das lavouras
Soraya Aggege – Caos no clima
Rádio
Cláudio Junqueira – O lixo em São Paulo – problema e oportunidade
José Renato da Silva Freitas Andrade Ribeiro – A máfia do agrotóxico
Rhubbhen Mhatteu de Melo Sampaio Lins – Capibaribe, a capivara do Nordeste
Tales Giovani Armiliato – Reciclagem: do sustento à proteção ambiental
Web
Isabela Vieira - Caiçaras
Paula Schver – Prata do Lixo – o valor da latinha de alumínio para a sociedade
Tatiana Campos – Castanha do Acre
Foto
Carlos Queiroz – Aves migram para o Parque da Lagoa do Peixe
Hélvio Romero – Resíduos presos à vegetação do Rio Tietê
Raphael Freire Alves – Cheia nos rio do Amazonas
Raphael Freire Alves - Manaus castigada
Sérgio Menezes – Corte ilegal de árvores em Tanabi
Assim falavam Zaca e Truta (III)
Truta contava contos contente
- tanto dinheiro lhe fazia bem.
Zaca contava contos também
Mas sabia que quem o ouvia
Era pouco mais que ninguém.
Núncio
Zaca sacou que tava de saco cheio
De ver tanta injustiça na sua terra.
Resolveu acabar com o novo reino
Com seus amigos declarou-lhe guerra.
Seria talvez uma covardia
Seis contra seis milhões.
Mas o amor de Zaca por sua gente
Tornava o sofrimento aguentante
Agonizante
Aguardente
Aguardante
Água dão-te?
No instante em que Truta a faca fia
O Kama-Sutra de frente-verso lia
E percebeu coisas lindas tantas via.
Anúncio
Vendo uma bicicleta 20 marchas bom estado preço instigante
Tratar fonte 34-0651 com o Deus do Trovão.
Posnúncio
Zaca zacou zomba
Zuntou zanta zente
Truta tacou tamanco
Tanto tamanho tragado
Zaca zabia zeu zono
zeria zambar na zona
Truta trouxe trabalho
Zaca zombou da zorte
Zirigaitiou per la zona
Zacrifício tão zusto?
Truta zerou Zaca
Na gruta.
Agora que Zaca estava zero quilômetro
Fora do mundo em que viveu
Longos trinta e três anos
Truta viveu mais cinco
E foi sucedido por seu filho Michelle.
Pafúncio
Nada melhor do que três semanas
E mais sete dias para descansar.
Vou tomar todas e mais algumas
Adeus, ao revoar!
(continua...)
- tanto dinheiro lhe fazia bem.
Zaca contava contos também
Mas sabia que quem o ouvia
Era pouco mais que ninguém.
Núncio
Zaca sacou que tava de saco cheio
De ver tanta injustiça na sua terra.
Resolveu acabar com o novo reino
Com seus amigos declarou-lhe guerra.
Seria talvez uma covardia
Seis contra seis milhões.
Mas o amor de Zaca por sua gente
Tornava o sofrimento aguentante
Agonizante
Aguardente
Aguardante
Água dão-te?
No instante em que Truta a faca fia
O Kama-Sutra de frente-verso lia
E percebeu coisas lindas tantas via.
Anúncio
Vendo uma bicicleta 20 marchas bom estado preço instigante
Tratar fonte 34-0651 com o Deus do Trovão.
Posnúncio
Zaca zacou zomba
Zuntou zanta zente
Truta tacou tamanco
Tanto tamanho tragado
Zaca zabia zeu zono
zeria zambar na zona
Truta trouxe trabalho
Zaca zombou da zorte
Zirigaitiou per la zona
Zacrifício tão zusto?
Truta zerou Zaca
Na gruta.
Agora que Zaca estava zero quilômetro
Fora do mundo em que viveu
Longos trinta e três anos
Truta viveu mais cinco
E foi sucedido por seu filho Michelle.
Pafúncio
Nada melhor do que três semanas
E mais sete dias para descansar.
Vou tomar todas e mais algumas
Adeus, ao revoar!
(continua...)
segunda-feira, 8 de março de 2010
Sobre obras de arte
"De acordo com o Samkhya-karita de Ishvarakrsna do século IV, o sábio Kapila sustentava que, do mesmo modo que ao assistirmos a um espetáculo de dança ou teatro nos identificamos com os dançarinos ou atores, nós que pensamos ou agimos no mundo passamos a nos identificar com nossos próprios pensamentos e ações. Desde o exato momento em que nascemos, observamos uma pessoa agir e pensar, e compartilhamos as alegrias, as ideias, as intuições e as agonias dessa pessoa; essa coexistência íntima com nós mesmos cria a ilusão de sermos aquela pessoa. As imagens que conscientemente criamos para nosso prazer, instrução ou alívio ampliam essa ilusão, permitindo-nos imaginar que uma pintura de Picasso, ou uma escultura de Aleijadinho revelam o mundo para nós ou nos revela para o mundo: assim também, e de forma assombrosa, é que em meio à nossa crueldade, ganância ou loucura sem inspiração, ainda sejamos capazes de criar e recriar tanta beleza. Essencialmente, toda imagem nada mais é do que uma pincelada de cor, um naco de pedra, um efeito de luz na retina, que dispara a ilusão da descoberta ou da revelação, do mesmo modo que nada mais somos do que uma multiplicidade de espirais infinitesimais em cujas moléculas - assim nos dizem - estão contidos cada um de nossos traços e tremores. De todo modo, tais reduções não oferecem explicações nem pistas sobre o que se constela em nossa mente quando vemos uma obra de arte que, implacavelmente, parece exigir uma reação, uma tradução, um aprendizado de algum tipo - e talvez, se tivermos sorte, uma pequena epifania." (Alberto Manguel em Lendo Imagens).
Que grosseria
Para fechar a sequência infeliz de piadinhas, o Steve Martin encerrou a cerimônia tripudiando sobre o grande derrotado da noite: "A cerimônia demorou tanto que Avatar já virou passado."
Louco para ir embora?
O Tom Hanks anunciou o melhor filme de supetão, sem o menor suspense. Coisa estranha.
Melhor diretora
Já se foi o tempo em que elas não sabiam dirigir (não resisti à piadinha machista). Feliz Dia Internacional da Mulher!
Acabo de concluir que...
... Barbra Streisand e Jennifer Aniston são a mesma pessoa, com uns 70 anos de diferença.
A enigmática popularidade de Kevin Bacon
Célebre pela "lei Kevin Bacon dos sete elos" - aquela que assegura ser possível estabelecer a ligação dele com qualquer ator ou atriz do mundo em no máximo sete conexões (vá neste site e digite "Humphrey Bogart" ou "Dercy Gonçalves", por exemplo) -, o sujeito já apareceu duas vezes em imagens de arquivo durante a cerimônia do Oscar.
Tuitando no blog
O impressionante espetáculo de dança que acaba de ser apresentado na cerimônia do Oscar compensou todas as piadinhas sem graça do Steve Martin.
terça-feira, 2 de março de 2010
Poder de síntese
Entre todos os colegas que ouvi para produzir meu livro sobre a vida de frila, a melhor síntese de como a gente se torna autônomo veio do fotógrafo Pedro Martinelli: “Fui tocando e continuo tocando, sem dar muita bola para os tropeções.” É isso mesmo. Bola para a frente, sempre.
Cidade tão linda, nome tão feio
A querida Julia Berutti me mandou logo cedo este artigo, publicado na Folha de S. Paulo de hoje. É assinado por Rubem Alves - um "aliado da minha causa", como definiu a Julia.
Floripa
Gosto do que a cidade me faz lembrar. Em Floripa, eu me sinto em casa. Melhor dizendo: volto para casa
SE EU PUDESSE , me mudaria para Floripa. Gosto dela por ela mesma, pelo lugar, pelo mar azul, pelas águas mansas, pelo cheiro de maresia, pelos barcos a vela, pelos golfinhos... Sempre me lembro de uma manhã de felicidade boba - felicidade boba é felicidade que acontece de repente, sem preparo, com pouca coisa, em momentos de distração. Eu, mulher e filhos pequenos éramos o mundo (em Floripa, a gente se esquece do mundo), assentados numa baía rasa de água morna catando berbigões, moluscos deliciosos quando feitos com arroz...
Gosto dela mesma, mas gosto também daquilo que ela me faz lembrar. Em Floripa, eu me sinto em casa. Melhor dizendo: volto para casa.
Eu nasci em Minas, lugar onde parece que não há mar. O problema é que os visitantes, ainda não iniciados nos mistérios de Minas, procuram o mar no lugar errado. Tomei muito banho de mar em Minas, especialmente em noite de lua cheia.
Tive uma casa lá no alto de uma montanha, dentro da cratera de um vulcão adormecido há 500 milhões de anos.
Nietzsche escreveu em algum lugar que o segredo da criatividade ou, quem sabe, da juventude é construir uma casa na base de um vulcão. Para a gente nunca dormir descansado. Viver perigosamente. Sempre é possível que o vulcão acorde do seu sono. Agora, com a fúria da terra que acordou do seu sono com terremotos e tsunamis, me pergunto: e se o vulcão adormecido acordar?
Mandei esculpir numa prancha de madeira de lei as instruções para aqueles que querem ver o mar de Minas: "O mar de Minas não é no mar. O mar de Minas é no céu, prô mundo olhar prá cima e navegar, sem nunca ter um porto prá chegar". Peço perdão ao poeta cujo nome esqueci. Lá, eu tomei muito banho de mar olhando pro céu. Eu olhava para cima, via as nuvens, navios que o vento tocava.
Aí sai das montanhas e fui para o mar. Mudei-me para o Rio. O mar é um espanto. Meu filho de quatro anos, depois de molhar os pés nas águas do mar pela primeira vez, me perguntou ao voltar para a casa: "O que é que o mar faz quando a gente vai dormir?"
O Rio era bom porque ele era mar e montanha ao mesmo tempo. E eu fiquei assim dividido, e até escrevi uma história para grandes e pequenos com o título de "A Selva e o Mar".
Mas agora o Rio ficou um lugar de tiros e medos. Tranquilidade não se encontra em nenhum lugar.
Por isso, gosto de Floripa, porque lá eu me lembro da minha infância livre no Rio, embora os cariocas nunca tivessem perdoado o meu sotaque de mineiro. Ir a Floripa é viajar em busca do tempo perdido.
Mas, para eu me mudar para Floripa, é preciso que ela mude de nome. Porque Floripa não é o nome dela. É um apelido de amor, que poderia ser para a mulher amada.
O nome oficial dela, escrito nos documentos e envelopes de cartas, é Florianópolis, cidade do Floriano. Floriano era nome de militar, apelidado de "marechal de ferro", um estranho nascido em Ipioca, distrito de Maceió, Alagoas. Não foi à toa que lhe deram esse apelido. Seus ferros furaram as paredes de um forte onde os inimigos da República eram executados por sua ordem. Pelo menos, foi isso que o guia me contou. E, olhando para a parede esburacada pelas balas, lembrei-me da tela terrível de Goya: "O Fuzilamento". E a cidade, que tinha outro nome, foi rebatizada com o nome de Floriano para celebrar uma vitória militar do férreo marechal.
Quero me mudar para a dita cidade. Mas não me dou bem com o seu nome. No dia em que a capital passar a ser oficialmente chamada de Floripa, cidade das flores, então eu mudo...
Floripa
Gosto do que a cidade me faz lembrar. Em Floripa, eu me sinto em casa. Melhor dizendo: volto para casa
SE EU PUDESSE , me mudaria para Floripa. Gosto dela por ela mesma, pelo lugar, pelo mar azul, pelas águas mansas, pelo cheiro de maresia, pelos barcos a vela, pelos golfinhos... Sempre me lembro de uma manhã de felicidade boba - felicidade boba é felicidade que acontece de repente, sem preparo, com pouca coisa, em momentos de distração. Eu, mulher e filhos pequenos éramos o mundo (em Floripa, a gente se esquece do mundo), assentados numa baía rasa de água morna catando berbigões, moluscos deliciosos quando feitos com arroz...
Gosto dela mesma, mas gosto também daquilo que ela me faz lembrar. Em Floripa, eu me sinto em casa. Melhor dizendo: volto para casa.
Eu nasci em Minas, lugar onde parece que não há mar. O problema é que os visitantes, ainda não iniciados nos mistérios de Minas, procuram o mar no lugar errado. Tomei muito banho de mar em Minas, especialmente em noite de lua cheia.
Tive uma casa lá no alto de uma montanha, dentro da cratera de um vulcão adormecido há 500 milhões de anos.
Nietzsche escreveu em algum lugar que o segredo da criatividade ou, quem sabe, da juventude é construir uma casa na base de um vulcão. Para a gente nunca dormir descansado. Viver perigosamente. Sempre é possível que o vulcão acorde do seu sono. Agora, com a fúria da terra que acordou do seu sono com terremotos e tsunamis, me pergunto: e se o vulcão adormecido acordar?
Mandei esculpir numa prancha de madeira de lei as instruções para aqueles que querem ver o mar de Minas: "O mar de Minas não é no mar. O mar de Minas é no céu, prô mundo olhar prá cima e navegar, sem nunca ter um porto prá chegar". Peço perdão ao poeta cujo nome esqueci. Lá, eu tomei muito banho de mar olhando pro céu. Eu olhava para cima, via as nuvens, navios que o vento tocava.
Aí sai das montanhas e fui para o mar. Mudei-me para o Rio. O mar é um espanto. Meu filho de quatro anos, depois de molhar os pés nas águas do mar pela primeira vez, me perguntou ao voltar para a casa: "O que é que o mar faz quando a gente vai dormir?"
O Rio era bom porque ele era mar e montanha ao mesmo tempo. E eu fiquei assim dividido, e até escrevi uma história para grandes e pequenos com o título de "A Selva e o Mar".
Mas agora o Rio ficou um lugar de tiros e medos. Tranquilidade não se encontra em nenhum lugar.
Por isso, gosto de Floripa, porque lá eu me lembro da minha infância livre no Rio, embora os cariocas nunca tivessem perdoado o meu sotaque de mineiro. Ir a Floripa é viajar em busca do tempo perdido.
Mas, para eu me mudar para Floripa, é preciso que ela mude de nome. Porque Floripa não é o nome dela. É um apelido de amor, que poderia ser para a mulher amada.
O nome oficial dela, escrito nos documentos e envelopes de cartas, é Florianópolis, cidade do Floriano. Floriano era nome de militar, apelidado de "marechal de ferro", um estranho nascido em Ipioca, distrito de Maceió, Alagoas. Não foi à toa que lhe deram esse apelido. Seus ferros furaram as paredes de um forte onde os inimigos da República eram executados por sua ordem. Pelo menos, foi isso que o guia me contou. E, olhando para a parede esburacada pelas balas, lembrei-me da tela terrível de Goya: "O Fuzilamento". E a cidade, que tinha outro nome, foi rebatizada com o nome de Floriano para celebrar uma vitória militar do férreo marechal.
Quero me mudar para a dita cidade. Mas não me dou bem com o seu nome. No dia em que a capital passar a ser oficialmente chamada de Floripa, cidade das flores, então eu mudo...
segunda-feira, 1 de março de 2010
Assim Falavam Zaca e Truta (II)
A casa de Truta é uma mansão monumental
Sete vezes sete vezes maior que o normal.
Zaca mora num lugar difícil de encontrar
E há quem diga que sua casa é algo peculiar.
Aliás, Zaca não tem casa (mora numa gruta)
E não tem dinheiro nem mulheres (como Truta).
Os olhos que olham com carinho,
Os pés que caminham no caminho.
As mãos que afagam com amor,
Milagres que acabam com a dor.
Zaca chegava fácil ao fundo da alma
Como quem flutua na água calma
Do fundo do mar.
Enquanto Truta, o profeta maldito
Não sabia o que era cativar.
Mal sabia que o que via todo dia
Era o fundo do poço, não do mar.
Olhos que eram só maldade,
Olhos que não viam beleza,
Alma que era só falsidade,
Alma que era só tristeza.
Mas de Truta trocaram o traje:
Tremendo estrume, trágico ultraje.
Três trompas trouxeram ao trono
Do cetro o novo dono.
Intrigante tristeza, triste certeza:
De um traidor transformado
Surgiu o novo rei coroado.
Mil vivas elevaram ao monarca.
Mil vozes cantaram ao monarca.
Mil almas encontraram a dor.
(continua...)
Sete vezes sete vezes maior que o normal.
Zaca mora num lugar difícil de encontrar
E há quem diga que sua casa é algo peculiar.
Aliás, Zaca não tem casa (mora numa gruta)
E não tem dinheiro nem mulheres (como Truta).
Os olhos que olham com carinho,
Os pés que caminham no caminho.
As mãos que afagam com amor,
Milagres que acabam com a dor.
Zaca chegava fácil ao fundo da alma
Como quem flutua na água calma
Do fundo do mar.
Enquanto Truta, o profeta maldito
Não sabia o que era cativar.
Mal sabia que o que via todo dia
Era o fundo do poço, não do mar.
Olhos que eram só maldade,
Olhos que não viam beleza,
Alma que era só falsidade,
Alma que era só tristeza.
Mas de Truta trocaram o traje:
Tremendo estrume, trágico ultraje.
Três trompas trouxeram ao trono
Do cetro o novo dono.
Intrigante tristeza, triste certeza:
De um traidor transformado
Surgiu o novo rei coroado.
Mil vivas elevaram ao monarca.
Mil vozes cantaram ao monarca.
Mil almas encontraram a dor.
(continua...)
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Reflexão sobre o idealismo
A perspectiva de “mudar o mundo” é um dos grandes atrativos do jornalismo para jovens idealistas. Quando estamos iniciando a carreira, temos a visão um tanto limitada de que isso só ocorre quando fazemos reportagens envolvendo denúncias. Com o tempo, aprendi que a mais prosaica das pautas pode ajudar as pessoas a ter uma vida melhor, já que o caminho mais eficaz para isso é o acesso à informação. Fiz recentemente uma reportagem sobre a cafeteria Santo Grão, um case de sucesso na gastronomia de São Paulo, para a Você RH. Uma das sócias, Vanessa Mills, 29 anos, disse que tudo começou em 2002, quando ela, recém-formada em publicidade e propaganda, decidiu passar um ano na Nova Zelândia com o objetivo de aprimorar o inglês. Para pagar o curso e se manter, Vanessa conseguiu trabalho como barista numa cafeteria – foi quando entrou em contato com a forte tradição que o café tem naquele país. De volta ao Brasil, estava à procura de trabalho quando soube que o neozelandês Marco Kerkmeester havia inaugurado a cafeteria em São Paulo. Foi conhecer a casa e conversou com Kerkmeester, que a contratou para o único cargo que tinha à disposição naquele momento: garçonete. Quando veio a ideia de lançar uma marca própria de café, Vanessa foi convidada para ser sócia e assumir o departamento de marketing. Ela estava feliz da vida com a situação profissional que havia alcançado e eu fiquei feliz da vida quando ela me contou que havia se decidido pela imersão na Nova Zelândia quando leu uma reportagem sobre o país como novo destino preferencial de brasileiros interessados em estudar inglês, publicada em 2001 na Veja. Lembrei de imediato que a matéria que ela estava citando havia sido escrita por mim, quando trabalhei na revista. Isso me fez pensar sobre quantas pessoas podem ter sido influenciadas pelas centenas de matérias que escrevi ao longo dos meus primeiros 15 anos de carreira e quantas ainda serão. E me deu a certeza de que, sim, eu ajudo a mudar o mundo um pouquinho.
Há algo estranho na web
A audiência deste blog é regular. Historicamente, tem um patamar médio diário entre 60 e 70 visitas de segunda a sexta e metade disso aos sábados e domingos, independente de eu postar ou não ao longo do final de semana. Sempre considerei que a diferença ocorre pelo fato de que muita gente só acessa a internet no ambiente de trabalho e sequer liga o computador nos dias de folga. No final de semana passado, contudo, fiquei surpreso com a audiência do domingo, comparável à dos dias úteis. E neste final de semana que está chegando ao fim tanto o sábado quanto o domingo mantiveram o padrão dos dias anteriores. Alguém arrisca uma explicação?
Silêncio na biblioteca
Morreu, aos 95 anos, um grande apaixonado por livros: José Mindlin. Em homenagem a ele, trechos de uma matéria que escrevi em 1999 para o jornal A Notícia, com dois ensinamentos importantes que tento seguir no cotidiano - aproveitar qualquer brecha para ler e só levar adiante as leituras que dão prazer:
Em meio à atribulada vida de empresário, como José Mindlin, 85 anos, arranjou tempo para ler mais de 8 mil obras? O segredo é simples: sempre levar consigo um livro. "Minha leitura foi composta sobretudo por pequenos períodos, de dez, 15 minutos. Aproveito qualquer tempinho que sobra", conta o homem tido como maior bibliófilo do Brasil, não apenas pelo tamanho e valor da biblioteca particular, como pela devoção que reserva aos livros. (...)
Mindlin confessa que passou a maior parte da faculdade de direito lendo no fundo da sala. Depois, já formado, sempre abria um livro enquanto esperava pelas audiências e julgamentos. O mesmo acontece até hoje nas viagens de avião. Na época de formação da Metal Leve, os longos chás-de-cadeira oferecidos pela burocracia estatal eram amenizados pela fiel companhia. Um dos hábitos que manteve por muito tempo, e que teve de abandonar em função do aumento da violência urbana, foi o de estacionar o carro embaixo de árvores para ficar lendo durante uma hora. "Fazia isso depois que deixava as crianças na escola e antes de ir para o escritório", relata. (...)
Mindlin aprendeu desde cedo que o prazer é fundamental na relação com os livros. Eles nunca devem ser impostos às crianças como obrigação. Só assim a atividade originalmente solitária passa a ser emocionante, povoada de personagens, cor e vida. Por isso ele não hesita em abandonar um livro que não o conquiste logo nas primeiras páginas, por melhores que sejam as referências.
Texto completo neste endereço.
Em meio à atribulada vida de empresário, como José Mindlin, 85 anos, arranjou tempo para ler mais de 8 mil obras? O segredo é simples: sempre levar consigo um livro. "Minha leitura foi composta sobretudo por pequenos períodos, de dez, 15 minutos. Aproveito qualquer tempinho que sobra", conta o homem tido como maior bibliófilo do Brasil, não apenas pelo tamanho e valor da biblioteca particular, como pela devoção que reserva aos livros. (...)
Mindlin confessa que passou a maior parte da faculdade de direito lendo no fundo da sala. Depois, já formado, sempre abria um livro enquanto esperava pelas audiências e julgamentos. O mesmo acontece até hoje nas viagens de avião. Na época de formação da Metal Leve, os longos chás-de-cadeira oferecidos pela burocracia estatal eram amenizados pela fiel companhia. Um dos hábitos que manteve por muito tempo, e que teve de abandonar em função do aumento da violência urbana, foi o de estacionar o carro embaixo de árvores para ficar lendo durante uma hora. "Fazia isso depois que deixava as crianças na escola e antes de ir para o escritório", relata. (...)
Mindlin aprendeu desde cedo que o prazer é fundamental na relação com os livros. Eles nunca devem ser impostos às crianças como obrigação. Só assim a atividade originalmente solitária passa a ser emocionante, povoada de personagens, cor e vida. Por isso ele não hesita em abandonar um livro que não o conquiste logo nas primeiras páginas, por melhores que sejam as referências.
Texto completo neste endereço.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Terremoto no Chile
Acordamos com as notícias do fortíssimo terremoto no Chile a logo ficamos preocupados com a Amanda, filha da Adri, que estava por lá havia algumas semanas. Mas foi só ligar para tirar o peso do coração: ela voltou há dois dias. Ufa.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Assim Falavam Zaca e Truta (I)
Profeta do Apocalipse Editora
In
the
pendente
orgulhosa
mente
apresenta
A odisséia do século
ASSIM FALAVAM ZACA E TRUTA
Baseado na novela homônima de Niestzche (é assim?)
"O mundo nítido sempre me pareceu colorido"
Gilles Villeneuve
Quero dedicar essa obra
a todos que acreditam
em astrologia, gnomos,
paulo coelho, saci-pererê,
Papai Noel, beleza interior,
concurso de miss e no
Book Sky Blue.
E também
à loucura dos homens,
à felicidade da alma
e às mulheres.
Paulo Macaco,
Não vem, pô.
De Millus
não vê santos
e não venta em dois.
***
Prenúncio
Por detrás do Monte Ébano surgiram dois profetas:
Zaca, o virtuoso; e Truta, o mentiroso.
Buscando seguidores está Zaca;
Fugindo dos credores está Truta.
Espalhando sua filosofia está Zaca;
Concentrando mordomias está Truta.
É a eterna luta
Zaca versus Truta.
Zaca acordou cedo num dia frio de inverno
Foi caçar javalis para alimentar seus discípulos.
Truta se ergueu doze horas depois do sol
e estava de volta seis horas antes da lua.
Não encontrando javalis, uma jaca colheu Zaca
Fruta gigante que um exército sustenta.
Enquanto pensava na grandeza da alma divina
do céu um estrondo anunciava a tormenta.
Jaca é fruta, mas Zaca não é Truta.
(continua...)
In
the
pendente
orgulhosa
mente
apresenta
A odisséia do século
ASSIM FALAVAM ZACA E TRUTA
Baseado na novela homônima de Niestzche (é assim?)
"O mundo nítido sempre me pareceu colorido"
Gilles Villeneuve
Quero dedicar essa obra
a todos que acreditam
em astrologia, gnomos,
paulo coelho, saci-pererê,
Papai Noel, beleza interior,
concurso de miss e no
Book Sky Blue.
E também
à loucura dos homens,
à felicidade da alma
e às mulheres.
Paulo Macaco,
Não vem, pô.
De Millus
não vê santos
e não venta em dois.
***
Prenúncio
Por detrás do Monte Ébano surgiram dois profetas:
Zaca, o virtuoso; e Truta, o mentiroso.
Buscando seguidores está Zaca;
Fugindo dos credores está Truta.
Espalhando sua filosofia está Zaca;
Concentrando mordomias está Truta.
É a eterna luta
Zaca versus Truta.
Zaca acordou cedo num dia frio de inverno
Foi caçar javalis para alimentar seus discípulos.
Truta se ergueu doze horas depois do sol
e estava de volta seis horas antes da lua.
Não encontrando javalis, uma jaca colheu Zaca
Fruta gigante que um exército sustenta.
Enquanto pensava na grandeza da alma divina
do céu um estrondo anunciava a tormenta.
Jaca é fruta, mas Zaca não é Truta.
(continua...)
Descoberta arqueológica
Ainda em consequência da nossa mudança, acaba de ser descoberto nos confins do meu cafofo o único exemplar conhecido da odisséia literária Assim Falavam Zaca e Truta, que este blogueiro produziu em 1992, aos 20 anos, época saudosa em que sobrava tempo para bobagens do gênero. Vou publicar a saga em partes, mas aviso desde já que pode ser chocante.
Isso sim é publicidade
Na minha humilde opinião, este é o melhor comercial dos últimos tempos. A Heineken tem outras pérolas, como o comercial do mau pressentimento e o da joaninha.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Tomate é fruta
Outro dia um amigo do Rio contou que a gíria do momento por lá é "mormaço".
- Aquele cara é o maior mormaço.
- Como assim?
- Não parece, mas queima.
Ao preparar o jantar em família, há pouco, criamos uma variação para a piada maldosa:
- Aquele cara é o maior tomate.
- Como assim?
- Ninguém sabe, mas é fruta.
(P.S.: Fique claro que meu amigo Emerson Gasperin, o Tomate, é uma exceção à regra.)
- Aquele cara é o maior mormaço.
- Como assim?
- Não parece, mas queima.
Ao preparar o jantar em família, há pouco, criamos uma variação para a piada maldosa:
- Aquele cara é o maior tomate.
- Como assim?
- Ninguém sabe, mas é fruta.
(P.S.: Fique claro que meu amigo Emerson Gasperin, o Tomate, é uma exceção à regra.)
Páginas (em branco) da história
O Gian e a Lu trouxeram para mim de Nova York dois blocos de anotações da Moleskine, um verdadeiro clássico - eram os preferidos de Hemingway e Picasso. Agora tenho uma tremenda responsabilidade: vou ter que providenciar algo muito importante para escrever nessas 160 páginas...
Faxina geral
Gastei minha hora extra de hoje (acabou o horário de verão, pessoal) atualizando a lista de blogs amigos aí do lado. Excluí os desativados, mudei os endereços de quem migrou e incluí alguns novos.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Minha primeira tuitada
Agora vou levantar e pegar um iogurte na geladeira.
(Brincadeirinha, foi só para provocar.)
(Brincadeirinha, foi só para provocar.)
Laços de família
Foi por meio deste site, sobre a história da cidade catarinense de Praia Grande, que conheci a face dos meus bisavós por parte de mãe (o link é para uma página sobre meus avós, Alberto e Celina). Até então eu não lembrava de ter visto uma foto do meu bisavô Octávio e da minha bisavó Dejalmina. É engraçado ficar procurando os meus traços e os traços dos meus filhos em imagens amareladas pelo tempo... E o mais intrigante é saber que essas pessoas, que morreram muito antes de eu nascer, ajudaram a construir o meu jeito de ser, uma vez que os conceitos, preconceitos, fobias, estigmas e características de personalidade chegam a influenciar quatro gerações adiante - perduram durante um século como uma espécie de "vírus" na família. (Uma curiosidade: a Vanda que aparece em uma das fotos é a minha mãe).
Síndrome de tuiteiro?
Tem acontecido com frequência nas minhas trocas de e-mails profissionais: lá pelas tantas a pessoa me pergunta sobre algo que eu já havia escrito. Cheguei à conclusão de que muita gente simplesmente não está lendo os e-mails até o fim ou absorve apenas a primeira informação (normalmente a mais importante naquele momento) e viaja na batatinha dali em diante. Ou então pensa que o e-mail acabou só porque dei uma linha de espaço entre um parágrafo e outro - sim, eu ainda uso parágrafos, embora hoje em dia muita gente considere que dois parágrafos sejam coisa demais para ler. Fico aqui pensando se o Twitter não está contribuindo para essa impaciência generalizada - minha hipótese é a de que, sem se dar conta, a pessoa começa a considerar monótono tudo o que não é escrito de forma telegráfica.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
There are places I remember
Com as Olimpíadas de inverno a mil, consultei meus alfarrábios para relembrar um pouco da linda Vancouver, que visitei em 1997 (e pretendo rever em breve, agora que o PH e a Renata moram lá, hehehe). Escrevi naquela época uma matéria para o caderno de turismo do jornal A Notícia. Alguns trechos:
"Vancouver é maravilhosa, mas os brasileiros também têm do que se orgulhar. Espremida entre o mar e as montanhas, a beleza da cidade é constantemente comparada nos folhetos de turismo à do Rio de Janeiro. Verdade seja dita, em alguns aspectos a diferença é absurda. Banhada pelo Oceano Pacífico, Vancouver tem dez praias de água escura e areia grossa. (...) Apesar das praias pouco graciosas, os vancouverites ostentam uma renda per capita 12 vezes superior à dos cariocas. Quem vai pegar sol na English Bay não precisa se preocupar com assaltos ou arrastões à beira-mar. Cachorro caminhando pela areia, então, nem pensar - é multa certa. (...) O presidente norte-americano Bill Clinton causou um sério problema social ao visitar a cidade. Ele queria caminhar pelo Stanley Park, uma das maiores e mais belas áreas verdes urbanas do mundo. Os precavidos agentes de segurança resolveram, então, vasculhar cada um dos 405 hectares do parque, usando até imagens de satélite. Descobriram sete pessoas morando lá, o que engrossou consideravelmente a estatística dos sem-teto de Vancouver."
"Vancouver é maravilhosa, mas os brasileiros também têm do que se orgulhar. Espremida entre o mar e as montanhas, a beleza da cidade é constantemente comparada nos folhetos de turismo à do Rio de Janeiro. Verdade seja dita, em alguns aspectos a diferença é absurda. Banhada pelo Oceano Pacífico, Vancouver tem dez praias de água escura e areia grossa. (...) Apesar das praias pouco graciosas, os vancouverites ostentam uma renda per capita 12 vezes superior à dos cariocas. Quem vai pegar sol na English Bay não precisa se preocupar com assaltos ou arrastões à beira-mar. Cachorro caminhando pela areia, então, nem pensar - é multa certa. (...) O presidente norte-americano Bill Clinton causou um sério problema social ao visitar a cidade. Ele queria caminhar pelo Stanley Park, uma das maiores e mais belas áreas verdes urbanas do mundo. Os precavidos agentes de segurança resolveram, então, vasculhar cada um dos 405 hectares do parque, usando até imagens de satélite. Descobriram sete pessoas morando lá, o que engrossou consideravelmente a estatística dos sem-teto de Vancouver."
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Os jornalistas e a matemática
Num post abaixo critiquei o uso exagerado de números e estatísticas pela publicidade, mas o jornalismo não está livre do mesmo pecado. Aliás, já testemunhei muito coleguinha tendo dificuldades para lidar com os princípios mais elementares da matemática - extrair um percentual, por exemplo. Veja esse trecho do Correio Lageano: "O sargento alerta aos motoristas que trafegam na SC-438 para que tenham cuidado e prudência. 'Nos últimos 15 dias tivemos cerca de 5 acidentes e 95% deles foram causados por falha humana. Este trecho é muito perigoso, com curvas e também com muita neblina, por isso é necessário cuidado redobrado', diz o sargento." É uma declaração bizarra, pois o índice de 95% só seria possível no caso de ter havido pelo menos 20 acidentes, com 19 deles causados por falha humana. De onde se conclui que o número 95 foi usado arbitrariamente como mero sinônimo de "quase todos". É o típico caso de precisão não apenas desnecessária, mas equivocada. Se o sargento falou exatamente daquele jeito, é obrigação do jornalista reformular o raciocínio, construindo algo como: "Nas duas últimas semanas ocorreram pelo menos cinco acidentes nesse trecho, causados quase sempre por imprudência dos motoristas. O excesso de curvas e a neblina exigem cuidado redobrado." (Não vou nem falar do "cerca de 5" para não bancar o chato).
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Wilsinho, um amigão do peito
A colunista social Vivi Mascaro acaba de publicar uma nota instigante a respeito do carnaval em Floripa. Leia esse trecho sobre o Cafe de La Musique, em Jurerê Internacional: "No Reveillon 2009/2010, o empresário carioca Wilsinho chegou a desembolsar R$ 300 mil em champanhe. Já nesse domingo de Carnaval, o herdeiro das Casas Bahia, Felipe Klein, pediu que todos os convidados de seu camarote fossem servidos com Moët Chandon Rosé. A conta? Cerca de R$ 100 mil apenas pela noite. A folia da noite passada foi animada por Rico Mansur. O empresário – que fazia as vezes de DJ na festa – pilotou o som por quatro horas ininterruptas, que tal? Para empolgar ainda mais os convidados da noite histórica, Álvaro Garnero – um dos sócios da casa - pegou o microfone e avisou: 'Dez minutos de ‘open bar’ para todo mundo'. Imaginem a cena?! Quem pagou a conta foi Wilsinho." Fiquei muito curioso para saber mais sobre esse Wilsinho, que parece tão gente boa, um verdadeiro amigo dos seus amigos. Os demais citados a gente sabe mais ou menos quem são (atire a primeira pedra quem nunca folheou uma Caras à espera do dentista). Mas... E o misterioso Wilsinho, que nem sobrenome tem? Que atividade tão lucrativa teria ele como empresário? Seria o Café-Livraria do Wilsinho, no Centro do Rio, primeira opção sugerida pelo Google? Acho que não...
Comerciais 63% mais ridículos
Percebi que a publicidade brasileira tem utilizado números e estatísticas com mais frequência, recurso tipicamente jornalístico que ajuda a construir certa sensação de credibilidade. Mas a dose anda exagerada e muitas vezes chega ao ridículo - há uma busca forçada por precisão onde não há necessidade. Alguns exemplos captados em meia hora com a TV ligada: um comercial de absorvente assegura que o produto deixa você "três vezes mais seca", a mocinha da propaganda de creme dental diz que ficou pasma ao descobrir que existem "doze tipos de problemas bucais" e o desodorante se gaba de deixar sua axila "17% mais hidratada".
domingo, 14 de fevereiro de 2010
É carnaval!
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Sempre sobrava para o prefeito
- Tá vendendo açúcar?, perguntei ao Lauro ao vê-lo sair do banho com o reco da bermuda aberto.
Ele não entendeu, claro. Aí expliquei que era um termo da minha infância.
- Vocês falavam cada bobagem naquela época, hein?, fulminou o menino, sem piedade. Eu mesmo havia dado munição a ele ao contar outras coisinhas que a gente dizia.
No par ou ímpar, por exemplo:
- Par!
- Ímpar!
- Eu #%@$ e tu limpa!
Ou a resposta para quando alguém dizia "bem feito!":
- Cheira o #% do prefeito!
Ele não entendeu, claro. Aí expliquei que era um termo da minha infância.
- Vocês falavam cada bobagem naquela época, hein?, fulminou o menino, sem piedade. Eu mesmo havia dado munição a ele ao contar outras coisinhas que a gente dizia.
No par ou ímpar, por exemplo:
- Par!
- Ímpar!
- Eu #%@$ e tu limpa!
Ou a resposta para quando alguém dizia "bem feito!":
- Cheira o #% do prefeito!
Caulfield e as convenções sociais
Li finalmente O Apanhador no Campo de Centeio, motivado pelo fato de que o autor, J. D. Salinger, andou morrendo por esses dias ("andou morrendo" é bom, hein?). Trata-se de um livro sobre um sujeito com evidentes perturbações mentais que descreve alguns dias de sua vida. A gente fica esperando o momento em que o psicopata vai finalmente matar alguém, mas isso não acontece - o que dá certa frustração e a sensação de ter sido enganado ao longo de 200 e poucas páginas. Mas há trechos em que somos obrigados a concordar com a filosofia do tal Holden Caulfield, apesar do jeito tosco de expressá-la. Um exemplo:
"(...) Aí me apresentou ao cara da Marinha, um tal de Comandante Blop ou coisa que o valha. Era um desses sujeitos que acham que vão parecer veados se não quebrarem uns quarenta dedos da mão da gente na hora de serem apresentados. Poxa, eu tenho um ódio desse tipo de troço. (...) O cara da Marinha e eu dissemos que tinha sido um prazer conhecer um ao outro. Esse é um troço que me deixa maluco. Estou sempre dizendo 'muito prazer em conhecê-lo' para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo."
"(...) Aí me apresentou ao cara da Marinha, um tal de Comandante Blop ou coisa que o valha. Era um desses sujeitos que acham que vão parecer veados se não quebrarem uns quarenta dedos da mão da gente na hora de serem apresentados. Poxa, eu tenho um ódio desse tipo de troço. (...) O cara da Marinha e eu dissemos que tinha sido um prazer conhecer um ao outro. Esse é um troço que me deixa maluco. Estou sempre dizendo 'muito prazer em conhecê-lo' para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo."
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
2010 começou com tudo
Mais duas matérias deste início de ano movimentado: um perfil da rede de cafeterias Santo Grão, para a Você RH, e um texto sobre as oportunidades de carreira nas companhias aéreas, publicada na edição de hoje do Valor Econômico. Um trecho: "Diante da pequena quantidade de empresas no mercado de aviação, o número de profissionais especializados é restrito e nem sempre é possível trazer alguém da concorrência – algo que, na realidade, só se revela estritamente necessário nas funções técnico-operacionais. Na maior parte dos cargos executivos, entender de aviação é apenas desejável, mas não obrigatório. O próprio presidente da Azul, Pedro Janot, ex-diretor do Pão de Açúcar e da rede de lojas de roupas Zara, está vivendo sua primeira experiência no setor, assim como outros 15 dos 50 executivos contratados pela empresa. A trajetória de Janot no varejo foi decisiva para sua escolha como o número um da nova companhia aérea, numa fase em que a crescente adesão das classes C e D tornou-se o fator mais relevante para a expansão do mercado nacional de aviação – que no ano passado foi de 17,6% na demanda por voôs domésticos e 13,5% nas linhas internacionais, os maiores percentuais desde 2005. Essa mesma lógica fez a mineira Daniela Guerra, 36 anos, ser contratada há quatro meses para a gerência nacional de marketing da Trip, outra empresa em ascensão. Ela trabalhava havia 11 anos na Tim, onde chegou ao cargo de gerente de marketing para os estados de Minas Gerais, Bahia e Sergipe. 'O setor de aviação está vivendo mais ou menos o que as telecomunicações viveram há dez anos: produtos até então elitizados que se tornaram acessíveis para uma fatia bem maior da população', compara Daniela, que é formada em Administração, com especialização em Marketing e mestrado em Administração Estratégica."
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Chuck Norris não morreu
- Pai, o Chuck Norris já morreu?
A pergunta do Lauro veio assim, de supetão, enquanto eu dirigia. Nenhuma razão especial. Ele apenas lembrou do Chuck Norris.
- Caramba... Sabe que eu não sei? Acho que morreu. É, morreu sim. Mas vamos dar um google em casa.
Eu ando assim. Tem um monte de gente que não morreu e eu penso que morreu, e há os que já cruzaram a fronteira final e eu acho que ainda estão entre nós.
Chuck Norris fará 70 anos em março.
A pergunta do Lauro veio assim, de supetão, enquanto eu dirigia. Nenhuma razão especial. Ele apenas lembrou do Chuck Norris.
- Caramba... Sabe que eu não sei? Acho que morreu. É, morreu sim. Mas vamos dar um google em casa.
Eu ando assim. Tem um monte de gente que não morreu e eu penso que morreu, e há os que já cruzaram a fronteira final e eu acho que ainda estão entre nós.
Chuck Norris fará 70 anos em março.
George Clooney tá me perseguindo
Saiu na edição de hoje do Valor Econômico uma matéria minha sobre o maior interesse das empresas em contratar profissionais oriundos das ciências exatas - matemáticos, físicos, estatísticos. O texto divide a página com a tradução da coluna semanal de Lucy Kellaway no Financial Times. Adivinhe o tema: "George Clooney não serviria para o mundo corporativo". Alguns trechos:
"Homens bonitões não pertencem à vida corporativa. Esse pensamento me ocorreu quando fui assistir recentemente 'Amor sem escalas', onde George Clooney interpreta um consultor de elite que voa ao redor dos Estados Unidos demitindo pessoas. (...)
O problema do filme é que Clooney é simplesmente bem apessoado demais para ser convincente. Em seus demais papéis, suas feições perfeitamente simétricas estiveram bem menos deslocadas. (...)
Mas para o mundo corporativo, Clooney não vale. Se você quiser ver a vida como ela é, visite o endereço da Forbes na internet e leia um artigo escrito por um consultor de recursos humanos chamado Burton Goldfield. Na vida real, ele fez algo parecido com o que Clooney faz no filme. Espero que Goldfield não se importe se eu observar que ele não se parece nem um pouquinho com Clooney. (...)
Se minha teoria estiver certa, posso conceber três explicações possíveis. A primeira é que homens no mundo dos negócios começam bastante bem-apessoados mas, até se tornarem suficientemente salientes para serem notados, já ficaram velhos e calvos e comeram demasiadas refeições de avião. (...)
A segunda e mais plausível explicação é que para homens bonitos há trilhas mais fáceis e mais glamourosas rumo ao sucesso do que uma longa e árdua escalada na hierarquia do setor de cimento ou seguros. (...)
A terceira possibilidade é que os bonitões são discriminados no mundo dos negócios. Uma vez que homens pouco atraentes tomam a maioria das decisões de contratação, lhes apetece manter os que têm boa aparência do lado de fora. Com mulheres, o inverso é verdade. Uma mulher bonita quase sempre é contratada num piscar de olhos."
"Homens bonitões não pertencem à vida corporativa. Esse pensamento me ocorreu quando fui assistir recentemente 'Amor sem escalas', onde George Clooney interpreta um consultor de elite que voa ao redor dos Estados Unidos demitindo pessoas. (...)
O problema do filme é que Clooney é simplesmente bem apessoado demais para ser convincente. Em seus demais papéis, suas feições perfeitamente simétricas estiveram bem menos deslocadas. (...)
Mas para o mundo corporativo, Clooney não vale. Se você quiser ver a vida como ela é, visite o endereço da Forbes na internet e leia um artigo escrito por um consultor de recursos humanos chamado Burton Goldfield. Na vida real, ele fez algo parecido com o que Clooney faz no filme. Espero que Goldfield não se importe se eu observar que ele não se parece nem um pouquinho com Clooney. (...)
Se minha teoria estiver certa, posso conceber três explicações possíveis. A primeira é que homens no mundo dos negócios começam bastante bem-apessoados mas, até se tornarem suficientemente salientes para serem notados, já ficaram velhos e calvos e comeram demasiadas refeições de avião. (...)
A segunda e mais plausível explicação é que para homens bonitos há trilhas mais fáceis e mais glamourosas rumo ao sucesso do que uma longa e árdua escalada na hierarquia do setor de cimento ou seguros. (...)
A terceira possibilidade é que os bonitões são discriminados no mundo dos negócios. Uma vez que homens pouco atraentes tomam a maioria das decisões de contratação, lhes apetece manter os que têm boa aparência do lado de fora. Com mulheres, o inverso é verdade. Uma mulher bonita quase sempre é contratada num piscar de olhos."
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Ninguém é perfeito
Outro dia eu li no Certezas Biodegradáveis esta crônica do Luis Fernando Veríssimo sobre o George Clooney. Pois os leitores da revista especializada em cinema Empire finalmente colocaram uma mancha no currículo do bonitão: ter protagonizado o pior filme da história. Cá entre nós: merecido, hein?
Lígia e o tio da árvore
Ontem à noite levamos a Lígia a uma festa de aniversário moderninha, para adultos. Perguntei agora pela manhã o que ela gostou mais:
- Do tio da árvore. Depois eu quero isso na minha festa.
Era um desses bartenders interativos que havia subido em uma árvore para virar uma garrafa de vodka num funil e abastecer simultaneamente seis pessoas por meio de "canudinhos" gigantes.
Podemos até providenciar algo parecido para a sua festa, Lígia, mas vamos substituir a fantasia de GoGoBoy pela do Barney e a vodka por suco de uva, ok?
- Do tio da árvore. Depois eu quero isso na minha festa.
Era um desses bartenders interativos que havia subido em uma árvore para virar uma garrafa de vodka num funil e abastecer simultaneamente seis pessoas por meio de "canudinhos" gigantes.
Podemos até providenciar algo parecido para a sua festa, Lígia, mas vamos substituir a fantasia de GoGoBoy pela do Barney e a vodka por suco de uva, ok?
Reminiscências à Umberto Eco
Eu tinha 12 anos quando Manfred Winkelhock morreu durante uma corrida de carros esportivos. Era um piloto de segundo escalão, mas ainda assim fiquei muito impressionando com o acidente - eu colecionava figurinhas dos pilotos de Fórmula Um e aquele jovem rapaz de nome esquisito era o de sorriso mais largo. Hoje, um quarto de século depois, o nome ressurge em minha memória vez ou outra, especialmente naqueles raros instantes em que a mente se esvazia de pensamentos - escovando os dentes ou dirigindo por uma estrada tranquila. É como se o cérebro estivesse me chamando de volta com sua voz silenciosa: "Manfred Winkelhock! Manfred Winkelhock!"
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Instantâneos da vida de frila
Estava eu trabalhando tranquilamente quando a Lígia chegou bem perto do notebook e deu uma mordidona na laranja que carregava. Voou suco em cima das teclas, no meu olho e até dentro da minha orelha. Eu ia reclamar, mas respirei fundo e apenas sorri. Afinal de contas, o que é uma menininha chupando laranja perto de alguns cães chupando manga com os quais já trabalhei?
Assinar:
Postagens (Atom)






