
Tão logo acabei de ler a mais recente obra de Lira Neto, a excelente biografia do Padre Cícero, escrevi esta resenha, publicada no Diário Catarinense de hoje. Como brinde aos leitores do Vida de Frila, segue uma pingue-pongue com o autor, não incluída no site do jornal.
Cearense como o seu biografado, o jornalista Lira Neto, 45 anos, radicado em São Paulo desde 2003, tornou-se um dos autores mais bem-sucedidos – e disputados – do mercado editorial brasileiro. O livro sobre o Padre Cícero marca sua estreia na Companhia das Letras, depois da boa repercussão de duas obras publicadas pela Editora Globo – Maysa: Só Numa Multidão de Amores, base da minissérie da TV Globo sobre a cantora, e O Inimigo do Rei, biografia do escritor José de Alencar, Prêmio Jabuti de melhor biografia em 2007.
Quais são as suas primeiras recordações do Padre Cícero?
Nasci em Fortaleza. Historicamente, entre as classes médias da capital cearense, o nome de Padre Cícero é visto com ressalvas e prevenções. Talvez isso seja ainda resquício das feridas abertas pela Sedição de Juazeiro. Por isso, cresci ouvindo histórias pouco edificantes sobre o padre. Os mais velhos diziam que ele era um embusteiro, que queria dominar o mundo. Mais tarde, já na universidade, tive contatos com certa produção teórica a respeito de Cícero, livros e tratados acadêmicos que procuravam explicar o fenômeno por um viés marxista e que, quase sempre, não davam conta da complexidade do personagem. Somente durante a fase de pesquisa, ao descer às fontes primárias, ao consultar os documentos históricos, fui conhecendo melhor Cícero e suas circunstâncias.
Como foi o processo de apuração? A Igreja colaborou com a sua investigação?
Nos últimos anos fui quatro ou cinco vezes a Juazeiro, onde mergulhei no universo das romarias, visitei lugares históricos e fiz todo um trabalho de imersão na atmosfera e nos cenários por onde o biografado trilhou e andou. Tive a sorte de contar com a generosidade de grandes pesquisadores do tema, que me forneceram valiosa contribuição documental. Na Diocese do Crato, tive acesso também a um amplo e valioso material, composto de cerca de 900 cartas trocadas entre os protagonistas da história, o que inclusive serviu de espinha dorsal do trabalho. Também tive acesso, por meio de fontes privilegiadas, a documentos oriundos do Arquivo Secreto do Vaticano. A todo instante e a todas as fontes, sempre deixei clara a minha posição de jornalista agnóstico, de alguém que não pertence a nenhuma religião e que não é dado a acreditar em milagres. Meu compromisso ético foi o de fazer uma pesquisa rigorosa, uma investigação séria e isenta, sem cair na armadilha da apologia, de um lado, ou da mera desconstrução, de outro.
A longa trajetória de Padre Cícero tem vários aspectos surpreendentes. Que momento da pesquisa o deixou mais surpreso?
Difícil escolher, na vertiginosa trajetória de Padre Cícero, um determinado momento, um episódio específico que possa ser posto em destaque. Mas posso dizer que, se a pesquisa nos documentos eclesiásticos me eletrizou, também me senti arrebatado pela riqueza de informações e de peripécias do Padre Cícero político. Se o livro fosse um romance, provavelmente seria acusado pela crítica pela presumida inverossimilhança de muitas cenas. Não é fantástico constatar que aquilo tudo ali descrito e narrado, por mais que pareça ter saído da cachola de um ficcionista em estado de delírio, aconteceu realmente?
Quais parecem ser as chances efetivas de que o Padre Cícero venha a ser reconhecido como santo pela Igreja? Que etapas precisam ser vencidas?
O que parece evidente é que a reabilitação do padre – que morreu proscrito da Igreja – já está em pleno vigor. Ela será oficializada em um prazo de tempo bem reduzido, presumo. Para o Vaticano, reabilitar Cícero significa anistiá-lo das penas a que ele foi condenado em vida. O avanço evangélico no interior do Brasil compõe o pano de fundo desse processo bem visível de reincorporar Cícero ao catolicismo. Deixar que ele permaneça à margem da liturgia significa ignorar, igualmente, uma legião de milhões e milhões de devotos, peregrinos e romeiros que o tem na conta de um santo. Contudo, é preciso deixar claro que a reabilitação é apenas o primeiro passo para uma possível posterior beatificação e, em seguida, uma presumida canonização. Nesses casos, para oficializar alguém como santo, o rito da Santa Sé costuma ser lento. Por isso, é impossível estabelecer datas e arriscar previsões. Mas uma coisa é fato: a Igreja está pavimentando, desde já, o caminho para tal.

Veja documentário que fiz sobre Padre Cícero, após dois anos de filmagens. Intitulado: PADIM CIÇO, SANTOU OU CORONEL? Se gostar, comente, avalie e divulgue. Pode acessar através do meu blog:
ResponderExcluirwww.valdecyalves.blogspot.com